I Workshop de Filosofia e Ensino – Sinopse

Eis um relato bastante geral a semana de atividades do I WFE.

A semana começou com um minicurso proferido pela professora Andrea Loparic, “De que trata a lógica”. Ela iniciu nos falou sobre a construção da linguagem do cálculo de predicados de primeira ordem, enfatizando a especificidade da função da linguagem de que ali se trata, a saber, a função denotativa; passou pelas questões relativas à interpretação e modelos para enfim marcar algumas diferenças entre a lógica clássica e lógicas alternativas, como a lógica modal, a lógica intuicionista e mesmo a lógica paraconsistente.

Na quinta-feira pela manhã o evento abriu com a palestra “Conhecimento simbólico e lógica”, na qual o professor Abel Lassalle Casanave apresentou ideias que favorecem a compreensão de algumas dificuldades típicas dos processos de aprendizagem de lógica simbólica – dificuldades que ele resumiu no diagnóstico de “analfabetismo simbólico-diagramático”. Uma das ênfases que o professor Abel fez questão de realizar, quase como uma demarcação de posição, se deu na avaliação crítica da proposta de que aulas de lógica sejam ministradas tendo em vista a formalização da linguagem natural – dada a natureza da motivação para o desenvolvimento da lógica simbólica, sua estreita relação com procedimentos de ordem matemática, o que não corresponde a um ideal de formalização e normatização do uso cotidiano da linguagem, mas tão somente às necessidades específicas de um domínio do pensamento a que se convencionou chamar pensamento simbólico.

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A segunda palestra, “Sobre o ensino de Lógica e Pensamento Crítico” versou acerca das especificidades desta disciplina, obrigatória no ciclo básico das universidades norte-americanas (a palestrante, Nastassja Saramago Pugliese, é professora assistente desta disciplina na Universidade na qual cursa seu doutorado, a Universidade da Georgia): suas origens histórias, seu status nos departamentos de filosofia e as interseções que naturalmente ocorrem com disciplinas como Introdução ao pensamento filosófico e Lógica simbólica.

A terceira atividade deste primeiro dia de Workshop apresentou um breve panorama das orientações oficiais para os processos de seleção de livros didáticos de filosofia do ensino médio de ensino brasileiro (o edital do PNLD e o Guia do PNLD para a disciplina de Filosofia), mostrando a ausência de qualquer especificação no que diz respeito ao ensino de lógica. Também foi exposto de maneira breve os principais problemas nas seções de lógica dos livros selecionados pelo MEC.

A última atividade do dia foi inesperada: havíamos planejado uma série de exercícios de lógica para “colocar a mão na massa” junto com o público, formado basicamente por professores de filosofia formados ou em formação, e a partir daí discutir estratégias para o ensino de lógica. Ocorre que a partir da exposição realizada na mesa sobre os livros didáticos, bem como da conversa que dela se seguiu, o professor Abel se dispôs a falar sobre uma possibilidade de encaminhamento didático e acabamos decidindo que a Oficina ficaria a seu encargo. Sua sugestão foi a de utilizar um conhecido texto de C.G. Hempel, constante em seu Filosofia da ciência natural, sobre a experiência que conduziu o médico húngaro I. Semmelweis da descoberta da causa da febre puerperal à construção de um método para sua prevenção. A ideia do professor Abel foi a de mostrar a utilização de formas válidas e inválidas de raciocínio na construção de conhecimento científico – o que inclusive permite abordagens interdisciplinares a nível escolar (no caso em questão, seria possível trabalhar com professores de Biologia e mesmo História).

No segundo dia de evento tivemos a apresentação da palestra “A Prática Argumentativa de Michael Sandel”, a cargo do professor Frank Thomas Sautter, que nos mostrou, desde considerações acerca da motivação para o trabalho em questões de Teoria da Argumentação, o modo como o referido autor apresenta os casos a partir dos quais discute problemas éticos em seus badalados livros Justiça – o que é fazer a coisa certa, O que o dinheiro não compra e Contra a perfeição. Um arquivo em formato .pdf com a apresentação pode ser encontrado aqui.

A mesa redonda que se seguiu à palestra do professor Frank versou sobre o uso de diagramas no ensino de lógica, tendo o professor Abel falado sobre a técnica diagramática de Venn para a silogística aristotélica e o professor Frank apresentado um método desenvolvido por ele mesmo para lidar com a silogística, a partir dos diagramas de L. Carrol.

Na segunda e última Oficina, eu e Nasstassja não fizemos mais do que uma breve série de exercícios de diagramação de silogismos para verificar sua validade e de construção de tabelas de verdade para avaliar a validade de raciocínios formalizáveis em lógica proposicional. Também indicamos uma série de livros de apoio para complementar as fraqueza dos conteúdos de lógica dos manuais selecionados pelo MEC, bem como consideramos a possibilidade de realizar uma Escola de Lógica nas férias de verão, para focar na realização de exercícios direcionados ao público escolar, desenvolvendo com maior acuidade as estratégias para o ensino de lógica.

Foi para mim uma grande alegria realizar este encontro, ainda que breve. Não somente porque pude apresentar ao meu novo universo acadêmico dois dos professores com quem aprendi o tantinho que sei desses assuntos, bem como uma colega com quem compartilho desejos de construir caminhos para o ensino de lógica em relação com a filosofia no ensino médio, mas principalmente por reforçar o contato com professores de filosofia interessados em aprimorar suas práticas a partir deste contato com o universo acadêmico.

Resta, a meu ver (dentre muitas coisas a fazer), ampliar o debate em torno dos reais problemas que surgem no cotidiano das salas de aula. Talvez a criação de um fórum virtual ou mesmo o prosseguimento da ideia de realizar uma Escola de Lógica no verão 2014/15 seja um passo nesta caminhada. Aguardo sugestões!

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4 comentários sobre “I Workshop de Filosofia e Ensino – Sinopse

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