Filosofia, Licenciatura, Currículo: um Colóquio

Na terça-feira passada (12 de abril de 2016) ocorreu o evento “Filosofia, Licenciatura e Currículo”, organizado pelo Núcleo Docente Estruturante do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria, especialmente pelo colega Renato Fonseca.

Col

O evento foi pensado “para discutirmos os desafios da organização curricular das licenciaturas em Filosofia, com base na elaboração teórica sobre o tema e em experiências concretas de ensino.”

Estes desafios, mencionados na descrição do evento, dizem respeito à necessidade de adequação da formação de professores à Base Nacional Comum Curricular, que por sua vez se encarnou na Resolução 02/2015 do Conselho Nacional de Educação, prescrevendo a adição de 400 “horas práticas” nos currículos de todas as licenciaturas brasileiras.

Abri a jornada de trabalhos com uma palestra intitulada “Filosofia, Ensino, Currículo: Algumas Projeções”. Após uma introdução situando conceitualmente as práticas que estamos realizando no PIBID UFRGS e a reforma que estamos pensando para a licenciatura em Filosofia da UFRGS, passei aos relatos e seus desenlaces

O professor Ronai Rocha seguiu os trabalhos com a palestra ” ‘Aquele filósofo com nome de chinelo’ E Como Seria um Currículo Verdadeiramente Voltado para o Ensino Médio Brasileiro”, na qual explorou ideias que ele vem engendrando há tempos, sobre critérios para desenhos curriculares orgânicos e epistemologicamente pensados. A referência ao “filósofo com nome de chinelo” diz respeito ao contexto de troca de cartas entre Ronai e a filha de uma ex-aluna da licenciatura, que costumava frequentar as aulas com sua mãe e certa vez, quando já tinha 11 anos, “(…) me lembrou um dia que eu estava na aula com o professor Robison ele disse de desmanchar uma casa e usar os mesmos tijolos para fazer outra, era sobre aquele filósofo com cara de brabo que a tia Cecilia gostava, que tem o nome parecido com nome de chinelo.” Acho que Ronai fez referência a esta estória da Laura para nos provocar com relação ao quanto de interesse questões como a do barco de Teseu podem ter para crianças, mas também para refletirmos sobre se os problemas filosóficos, tratados em contextos escolares de nível fundamental, precisam ser nomeados com nomes de filósofos (muitas vezes nos preocupamos tanto em “vender” uma determinada filosofia que falamos mais dos filósofos de nomes esquisitos do que de suas ideias e argumentos, não é mesmo?)

Depois do almoço o Colóquio prosseguiu com mais três momentos: a palestra da Prof.ª Elisete Tomazetti, da UFSM – na qual ela fez um resgate histórico sobre a composição curricular do curso de licenciatura em filosofia da UFSM e propôs diversas questões para pensarmos as novas composições, daqui pra frente; um momento de escuta dos estudantes e alguns egressos do curso, para que pudessem compartilhar ideias sobre o currículo pelo qual foram formados, suas falhas, positividades e melhoramentos possíveis; e, por fim, o colega Juliano do Carmo, da UFPel, contou-nos sobre o processo de instauração e manutenção do curso de licenciatura em filosofia na modalidade EAD. A fala de Juliano foi muito importante, especialmente no sentido do reforço da necessidade de bons planejamentos para cursos – tanto presenciais como EAD.

Apesar de haver colegas, especialmente das Faculdades de Educação, que alimentam certo desprezo por discussões acerca de planejamento e desenvolvimento de estratégias metodologicamente robustas de ensino (incluindo-se debates sobre avaliação), a fala de Juliano mostrou a tarefa de pensar em nossas próprias estratégias didáticas pode muito bem ser realizadas por gente de nossos departamentos, obrigada. (Este não é o lugar de contra-argumentar, mas deixo indicado que em geral o referido desprezo se enuncia com ares de apreço pelas subjetividades, diferenças, e ouras categorias que, mesmo relevantes, não ajudam muito a preparar professor algum. Não é de se espantar, como mostrará o novo livro do Professor Ronai, que tenhamos chegado a este ponto – em que quando demandamos preparação e treino para nossos futuros professores somos taxados de utilitaristas em busca de repostas à questão “como fazer?” O que deve sim nos preocupar é prosseguimento desse estado das coisas, e por isso os departamentos de filosofia precisam assumir de uma vez por todas a responsabilidade pela formação docente, como aliás já o fazem outros departamentos em muitas universidades do Brasil.)

Os estudantes e egressos da licenciatura em Filosofia da UFSM ocupando o espaço de fala no Colóquio.

Alguns estudantes e egressos da licenciatura em Filosofia da UFSM ocupando o espaço de fala no Colóquio.

O que ficou mais deste dia, para mim, foi esta segurança: o desamparo que muitos alunos sentem ao concluir suas licenciaturas pode ser mitigado se os cursos de filosofia chamarem para si a responsabilidade de pensar a docência, o currículo, a didática.

Esperamos poder realizar mais desses colóquios e consolidar uma rede de pesquisa em didática da filosofia à altura dos desafios que temos pela frente.

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