Varia

Na sequencia da notícia que inseri ao final da postagem anterior, acompanhada de uma entrevista em que se aventam mudanças no PIBID, li no Estadão texto (publicado em 17 de agosto) de Isabela Palhares, titulado “Programa de bolsas para professor tem redução de 14,8%” – “Ministério da Educação (MEC) alegou que fará mudanças; fórum nacional teme pela continuidade do projeto”

Reproduzo a íntegra do texto para quem não consegue acesso ao jornal:

Uma das principais ações do governo federal de formação de professores para a educação básica, o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) sofreu uma redução de 14,8% no número de bolsistas nos últimos dois anos. Sem dar detalhes, o Ministério da Educação (MEC) informou que está estruturando para o próximo ano uma reformulação do programa, que concede bolsas para estudantes de licenciatura estagiarem em escolas públicas do País.

O Estado obteve pela Lei de Acesso à Informação dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), responsável pelo programa, que tinha 65.185 bolsistas do Pibid em junho de 2015. No mesmo mês deste ano, eram 58.268. 

O programa concede bolsas de R$ 400 aos alunos de licenciatura para participarem de projetos em escolas de educação básica, além de pagar R$ 1,2 mil aos coordenadores e R$ 600 aos professores responsáveis pelas disciplinas.

 

 

O MEC informou que houve um corte de bolsas ao fim de 2015, quando foi feito um “ajuste do programa ao orçamento que havia sido aprovado naquele ano” – o ministério perdeu 10% de seu orçamento, cerca de R$ 10,5 bilhões a menos. No primeiro semestre de 2015, a Capes pagou R$ 251,7 milhões em bolsas. O montante caiu 10,1%, R$ 226,5 milhões, no mesmo período de 2016. A pasta disse que atualmente estão disponíveis 59.156 bolsas para o Pibid e os coordenadores de projetos não preencheram todas.

Nilson Cardoso, presidente do Fórum Nacional dos Coordenadores do Pibid (Forpibid), disse que a preocupação é com a sobrevivência do programa, reconhecido por proporcionar aos jovens da graduação a vivência do cotidiano das escolas públicas. “O Pibid tem uma dinâmica diferente, porque os alunos se formam ou conseguem outra bolsa e são substituídos. O que acontece desde 2015 é que as vagas são fechadas, sem aviso e sem a possibilidade de incluir novos bolsistas. É um efeito cascata.”

No último período do curso de educação física da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) , Hugo Tavares, de 22 anos, tentou por dois anos, mas não conseguiu ser selecionado para o Pibid. “É uma pena não ter tido essa oportunidade. Acredito que limita minha formação, porque não tive um contato direto com as escolas e alunos. Eu quero dar aula na rede pública e tenho certeza que teria feito diferença na minha trajetória profissional”, diz.

Segundo Tavares, em sua turma 15 estudantes tentaram o ingresso no programa e nenhum conseguiu. Apesar do valor da bolsa ser pequeno, ele disse que teria o ajudado financeiramente e poderia ter impedido que ele procurasse emprego em outras áreas durante a graduação. “Nos últimos anos, trabalhei com vendas para poder me manter na faculdade. Gostaria de ter trabalhado com educação, que é onde vou atuar, mas, como não consegui, tive que me virar”, disse.

Em 2015, uma pesquisa, feita com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), mostrou que 64% dos formados que participaram de programas de iniciação à docência, como o Pibid, foram trabalhar na área da educação – 88% atuando como professores . Dentre os que não trabalhavam na área, 47% disse estar aguardando concurso na rede pública.

Em nota, o MEC informou que atualmente estão disponíveis 59.156 bolsas para o Pibid e disse que os coordenadores de projetos não preencheram todas elas. O ministério também disse que o programa é “apenas umas das iniciativas” para qualificar a formação de professores. “Sem pretensões de ser universal, ele deve funcionar como indutor de boas práticas”, disse em nota.

Sobre as mudanças no programa, a pasta disse ter montado um grupo de trabalho para a reformulação e a previsão é de que as primeiras conclusões sejam apresentadas em outubro. “A intenção é garantir a autonomia das secretarias de educação na escolha das escolas em que o Pibid irá atuar, bem como uma participação mais ativa nos projetos a serem desenvolvidos”, disse.

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No dia 24 de agosto o Professor Ronai Rocha proferiu uma aula inaugural em sua universidade. Foi no Centro de Ciências Naturais e Exatas (CCNE), o registro audiovisual está disponível na plataforma Farol UFSM, e a aula versou sobre Quando Ninguém Educa, seu livro-desafio.

No início da aula o professor fala de algo que me tem precupado bastante: como estamos trabalhando, nos cursos de licenciatura, as habilidades para ensinar dos futuros professores? Fazemos/faremos isso nos “departamentos de conteúdo” ou o deixamos/deixaremos a cargo das faculdades de educação, especialmente dos cursos de pedagogia? (A propósito recolhi dois textos, que ainda não li, sobre a história dos cursos de pedagogia no Brasil e sobre seus currículos) Ou deixamos isso para nunca? Este texto sobre “aulas invertidas” fala do tipo de coisa a que aludo.

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Já que o vento está soprando nesta direção, o Prof. Ronai também disponibilizou para discussão, em sua página do Academia.edu, um texto, antes postado em seu blog, em que provoca reflexões sobre certa tendência em assuntos de didática da filosofia, de entendimento de si como “uma coisa que discute filosofia” (Millôr, informe-se). O texto pretende pontuar, como se anda dizendo, ideias que merecem mais atenção de nossa parte – nessas horas de aprimorar os argumentos em defesa da nossa presença na vida escolar, dados os golpes sofridos nos últimos tempos no rumo das coisas brasileiras.

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A ANPOF noticiou em seu site a publicação da Coleção Novas Tendências para o Ensino de Filosofia, organizada por Adriana Mattar Maamari:

O Volume 1 se intitula Tópicos específicos de aprendizagem

O Volume 2 Campo histórico-conceitual, didático e metodológico

O volume 3 se chama O contexto de sala de aula e o âmbito das pesquisas

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Foi publicado pela Cultura Acadêmica o livro resultado do doutoramento de Tiago Brentam Perencini (UNESP/Marília), Uma arqueologia do ensino de filosofia no Brasil – Formação discursiva na produção acadêmica de 1930 a 1968, que pode ser baixado aqui. A sinopse diz:

O objetivo deste livro é investigar a formação discursiva do ensino de filosofia em nível universitário no Brasil. O autor analisa as condições para a formação do saber sobre “ensino de filosofia” na esfera universitária. Para isso, pesquisa os anos 1930, década em que se inicia a criação das principais Faculdades de Filosofia no Brasil, até 1968, ano da Reforma Universitária no país, para: (a) verificar a hipótese de pesquisa, que visa analisar o formato de articulação entre os discursos filosófico e pedagógico na constituição do saber “ensino de filosofia”; (b) oferecer o mapeamento do debate acerca do ensino de filosofia no debate acadêmico entre os anos de 1930 e 1968.

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Escolas sem Filosofia e Sociologia – uma pesquisa importante

Os colegas do GT da ANPOF Filosofar e Ensinar a Filosofar propuseram uma pesquisa, via Google, para levantar dados acerca do estado atual do ensino de Filosofia e Sociologia nas escolas brasileiras após as mudanças impostas pelo atual governo. Ela pode ser respondida por professores do nível básico de ensino neste link (é preciso ter conta no Google para responder, no entanto). O texto que apresenta a pesquisa explica:

Com o impacto da Lei 13.415 de 2017, conhecida como a Reforma do Ensino Médio, temos coletado informações de que muitas escolas estão se antecipando e retirando o ensino de Filosofia e Sociologia, antes obrigatório pelo extinto artigo 36 da Lei de Diretrizes e Bases (Lei 9394/1996).
A fim de conhecer a natureza de transformações curriculares nas escolas de ensino médio nesse processo, nosso Grupo de Trabalho “Filosofar e Ensinar a Filosofar” da Associação Nacional de Pós Graduação em Filosofia (ANPOF) vem à público para solicitar aos colegas professores, bem como pais, alunos e gestores informações sobre as transformações curriculares em suas escolas.
Queremos saber, a partir do chão de sala qual a situação destas disciplinas e, com bases nesses dados (ainda que imprecisos) promover um debate sobre o significado desta reforma do ensino médio e seu impacto em disciplinas ainda recentes como a Filosofia e a Sociologia.

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Desde a “proposição” da assim chamada “Reforma do Ensino Médio” a ameaça de ostracismo (ou seria exílio?) curricular paira não somente sobre as cabeças dessas duas disciplinas escolares, que por último ingressaram neste ambiente, mas sobre todas as disciplinas escolares com exceão da Língua Portuguesa e da Matemática. Em especial, sabemos, ameaça-se a vida curricular das Humanidades em nossas escolas públicas. As universidades públicas, a seu turno e como de costume, estão algumas mais ou outras menos engajadas na defesa e mesmo na discussão sobre como enfrentar estas ameaças.

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De outra parte, noticiou-se hoje no site da CAPES a publicação de uma portaria no D.O.U. versando sobre a “indução à integração das ações de formação de professores para a educação básica nas IES”. O que, creio, é um avanço na direção de transformações de projetos que integravam o PARFOR, como o PIBID, sobre as quais fala, por exemplo, a professora Maria Beatriz Luce nesta entrevista, que vale a pensa ser lida pelos interessados nas mudanças nas estruturas curriculares dos cursos de licenciatura.

Guia do Livro Didático 2018

Há poucos dias contei por aqui a notícia da seleção de oito livros didáticos de Filosofia por meio do PNLD 2018.

Agora soube que já está disponível o Guia do Livro Didático, livro de resenhas que auxilia os professores das escolas públicas em suas escolhas.

Aqui há um link direto para os textos sobre os livros de Filosofia.

 

 

PNLD 2018 – oito opções de Filosofia

No início deste mês de agosto foi divulgada pela Secretaria de Educação Básica do MEC a Portaria com o resultado final da atual edição do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) para o Ensino Médio. O PNLD, para quem não sabe, é um dos Planos do Livro, cujo destino não se sabe qual será após o anúncio de que o grupo atualmente responsável pelo governo do país manifestou mais desprezo pelas políticas públicas educacionais forjadas e levadas a cabo nos últimos anos.

Desta feita, diferentemente da última, foram selecionados oito livros didáticos de Filosofia, a serem escolhidos pelos professores das escolas públicas brasileiras a partir do dia 21 de agosto. São eles:

Filosofia e filosofias: existência e sentidos, de Juvenal Savian Filho. (Pode-se com proveito ler aqui uma entrevista de Juvenal sobre seu livro, publicada no portal Carta Educação em dezembro do ano passado. Já aqui, uma postagem do blog do professor Ronai sobre a mesma obra.)

Reflexões: filosofia e cotidiano, de José Antonio Vasconcelos.

Filosofia: temas e percursos, vários autores – organizado por Vinícius de Figueiredo. (Há uma resenha disponível aqui.)

Filosofia: experiência de pensamento, de Sílvio Gallo. (Pode-se acessar aqui uma entrevista com o autor sobre seu livro.)

Fundamentos de filosofia, de Gilberto Cotrim. (Na 17ª edição)

Iniciação à filosofia, de Marilena Chauí. (O tradicional Convite à filosofia, rererevisitado.)

Filosofando: introdução à filosofia, de Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins (Similarmente, rerere…).

Os três últimos são os mais velhos conhecidos do professorado brasileiro de filosofia. O livro de Gallo já havia sido selecionado no último edital (pode-se ler o livro de resenhas, Guia do Livro Didático de 2015aqui), enquanto os demais são novidades bem-vindas (conheço alguns)!

A escolha dos livros inicia no dia 21 de agosto e fica em aberto durante somente duas semanas. Gostaria de poder organizar um evento reunindo os professores de filosofia da região metropolitana de Porto Alegre para discutir critérios e obras, antes deste prazo encerrar, mas não sei se há tempo hábil e energia para tal. Alguém se anima?

 

Quando ninguém educa – questionando Paulo Freire

Está disponível para pré-venda o novo livro do Professor Ronai Rocha, o Quando ninguém educasubintitulado questionando Paulo Freire. 

(Informação prática: professores recebem 20% de desconto no site da Editora Contexto.)

Acompanhei a confecção deste livro desde que era ideia ainda, passando por quando tinha outro título, acho que a partir de fins de 2015, até chegar à última versão e a notícia da impactante capa. Estávamos, em 2015, em meio ao processo de crítica à primeira versão da BNCC, quando – como conta Ronai na Introdução, que pode ser acessada aqui – uma importante associação nacional de educação cometeu uma dura crítica à empreitada mesma de construção de uma Base Curricular mínima para a escola brasileira.

Conforme fui lendo as diferentes versões do texto neste último par de anos – sempre contente pela confiança do maestro em minha capacidade leitora – não só aprendi muito sobre crítica, epistemologia, pedagogia, história das ideias, sobre a universidade brasileira, sobre Paulo Freire (seus contextos e sectos, seus textos e ideias), mas sobre como acertar a letra e o passo de um texto que, por sua natureza, estilo e substância, já se sabia desde sempre que causaria as mais diversas reações. Estou segura de que a variedade delas incluirá muitos “não li e não gostei”, algumas leituras oportunistas e outras tantas dedicadas e justas.

A lida cotidiana é bastante e intensa por estes dias, mas já está prometida uma resenha do livro para meados de agosto, quando espero poder visitar Santa Maria para o lançamento.

Até lá, deixo o convite para que o livro seja lido por todos os interessados em educação em nosso país, segundo os mesmos rigor, acurácia e arrojo com os quais foi escrito – ainda que, quase que de modo inescapável, gere sentimentos conflitantes, do mesmo modo como foi escrito.

Em tempos de ruptura e reorganização de forças sociais, políticas e também acadêmicas, como os que estamos vivendo, este livro nos oferece a perspectiva de sacudir certas poeiras (seria melhor dize-lo: movimentar certas placas tectônicas?) que há muito nos impedem de ver melhor onde estamos, como aqui chegamos, bem como por onde e por que seguir.

Em tempo, a editora apresentou o livro assim (o grifo da frase final é meu):

A crise na educação brasileira é inegável. A baixa qualidade das aprendizagens, a estagnação do desempenho escolar nos testes padronizados, a pouca relevância do aumento dos anos de estudo na vida do aluno, a crescente evasão escolar em todos os níveis, o aumento da distorção idade-série e tantos outros problemas são evidências disso. Mas onde se localizam as raízes teóricas da atual crise educacional que vivemos? Neste livro, o professor Ronai Rocha se dedica a desvendar e a compreender o pensamento teórico dominante no cenário educacional e pedagógico brasileiro. O autor realiza um movimento esclarecedor sobre as raízes da reflexão sobre educação no país, que incidem até hoje na formação de nossos professores. E mostra como uma maneira peculiar de ler Paulo Freire afeta o ensino no Brasil.

Viceja

Ocorre daqui a alguns dias na UFRGS o IV Workshop de Filosofia e Ensino. Dadas as atuais circunstâncias brasileiras, nas quais se ameaça tanto, inclusa a vida de nossa atividade como disciplina obrigatória nas escolas – e mesmo a realização plenamente adequada de eventos como este, dada a escassez de recursos – o tema deste ano é “Qual Filosofia? Qual Ensino Médio?”.

No ano que vem completam-se 10 anos de nossa inserção como disciplina obrigatória nos currículos do ensino médio brasileiro, e nesta década muitas coisas importantes foram feitas para discutir e aprimorar o ensino de filosofia no Brasil – fortalecimento do GT da ANPOF Filosofar e Ensinar a Filosofar (que este ano realiza a quarta edição de seu encontro), desenvolvimento das Olimpíadas de Filosofia em diversos estados, criação da ANPOF/Ensino Médio, criação do PROF-Filo, realização de diversas atividades e encontros relacionados aos PIBID Filosofia (acaba de ocorrer o III Encontro, em Natal). Isso sem falar nos frutos da árvore editorial, e os da preparação para exames de ingresso etc..

O evento da UFRGS, cuja programação completa pode ser acessada aqui, é uma tentativa de mostrar a importância de conversas sobre nós, professores de filosofia, e nossas relações curriculares na e com a escola.

 

UFRGS/Campus do Vale – Porto Alegre/Brasil

A Filosofia na Base, ou no meio do redemunho

Noticiou-se na semana passada a entrega da terceira versão da BNCC por parte do atual dirigente do Ministério da Educação (MEC) ao Conselho Nacional de Educação (CNE). Aqui se pode acessar a notícia, no site da câmara.

Antes desta entrega Maria Helena Guimarães Castro já havia, em videoconferência a jornalistas especializado em educação (JEDUCA), apresentado certas sinalizações acerca do documento, que se refere tão somente ao nível fundamental de ensino básico, excluindo-se o médio.

A Associação Nacional da Pós-Graduação em Educação divulgou esta nota preliminar, da qual destaco o seguinte trecho:

      A BNCC é um documento inspirado em experiências de centralização curricular, tal como o modelo do Common Core Americano, o Currículo Nacional desenvolvido na Austrália, e a reforma curricular chilena – todas essas experiências amplamente criticadas em diversos estudos realizados sobre tais mudanças em cada um desses países;
      A retirada do Ensino Médio do documento fragmentou o sentido da integração entre os diferentes níveis da Educação Básica, ao produzir centralização específica na Educação Infantil e Ensino Fundamental;
      É preocupante também a retomada de um modelo curricular pautado em competências. Esta “volta” das competências ignora todo o movimento das Diretrizes Curriculares Nacionais construídas nos últimos anos e a crítica às formas esquemáticas e não processuais de compreender os currículos;
       A retirada de menções à identidade de gênero e orientação sexual do texto da BNCC reflete seu caráter contrário ao respeito à diversidade e evidencia a concessão que o MEC tem feito ao conservadorismo no Brasil;
      A concepção redutora frente aos processos de alfabetização e o papel da instituição escolar na educação das crianças.

Os jornalistas do JEDUCA também se manifestaram, mas sobre o modo como o MEC procedeu com eles: deu acesso, com embargo, a uma versão do documento que afinal não foi aquela entregue ao CNE – nesta, expressões como “orientação sexual” não ocorrem mais (diz-se que isso ocorreu após reunião de dirigentes do MEC com representantes da assim chamada bancada evangélica do congresso nacional). mas acabou  A Base do Ensino Médio, ao que tudo vem indicando, será entregue somente em fins de 2017.

Para refletir sobre esta versão do documento, recomendo tanto este texto publicado no Nexo. Sobre a a exclusão do Ensino Médio, o papel das instituições privadas, e ainda outros aspectos extremamente relevantes, confiram as ponderações do colega Edgar Lyra neto (PUC-Rio, que participava da confecção da parte relativa à Filosofia até a ruptura no comando do governo federal) no site da ANPOF.

Há muitíssimo a discutir acerca de todo este processo, que se ganhou algo em qualidade (antecedente a ser verificado, com critérios claros e discussões públicas e sérias), certamente perdeu em caráter democrático.

Os impactos para a formação docente, por exemplo, ainda são obscuros. (Algumas universidades já estão adaptando os currículos de suas licenciaturas à resolução 02/2015 do CNE enquanto outras, mais prudentes, aguardam a versão completa da BNCC e novos posicionamentos do MEC para saber se o que a Lei 13.415 diz sobre a formação docente não é incompatível com aquela resolução.)

E a Filosofia?

Por ora, até onde pude saber em conversas com colegas de outros estados, as escolas públicas permanecem conosco em suas práticas curriculares.

Em breve podemos estar na rua, no meio do redemunho.

Teremos sido interrompidos por uma Base no meio do caminho?

 

Redemoinho, Xiologravura de Arlindo Daibert

P.S.: Na semana passada também se soube desta Comunicação da ONU sobre o famigerado programa (projeto? como chamar?) Escola Sem Partido. E, sobre o ensino superior, Lilia Schwarz refletiu sobre a situação da UERJ como prenúncio de novos e piores tempos para Universidade brasileira no Nexo.

 

 

Outros revérberos

Há poucos dias soube, com intenso sentimento de júbilo e por intermédio da colega Carmelita Britto (Departamento de Filosofia da UFG), que o núcleo que coordena os estágios do curso de licenciatura propôs, juntamente com estudantes da disciplina de Estágio III, um Seminário de Estudos sobre os textos dos estudantes de Seminário de Ensino em Filosofia que publiquei aqui no blog. Abaixo, o cartaz do evento.

 

Filosofia e Ensino – um blog na ativa

O blog Filosofia e Ensino, criado por Leonardo Ruivo e Marcos Goulart, conta agora com Fábio Vai Pereira e Tatiana Vargas Maia como autores.

Nas últimas semanas, duas ótimas postagens foram publicadas. A primeira é um texto de Leo Ruivo, “Falácias, Vieses e Preconceitos”, que aborda importante tema nesses dias brasilianos em que a pós-verdade (ou, como querem alguns, a boa e velha mentira deslavada) faz cabeças rolarem e se enrolarem, dentro e fora das redes sociais – na vida vivida. A segunda é um texto da Tatiana Vargas, “Estudos de Gênero na sala de aula”, de temática igualmente importante, em tempos de inúmeras tentativas de supressão de tão premente questão das vidas curriculares escolares brasileiras.

Em alguns dias inicia o semestre letivo na UFRGS. Na lista de sítios que recomendo aos alunos de Análise e redação em filosofia – Ensino Médio e Introdução ao estágio em filosofia, estará o link para o Filosofia e Ensino, além do Filosofia Pop.

Alguma sugestão dos leitores para incrementar a lista?

 

Cité de la Musique – Paris

Ensaios sobre a filosofia na vida do ensino médio brasileiro

A pergunta que intitula esta postagem foi proposta por mim aos alunos de Seminário de Ensino em Filosofia (SEF), como motivo para a confecção de um ensaio, a título de avaliação final da disciplina – uma das específicas da licenciatura em filosofia da UFRGS que lecionei  em 2016/2.

Nossas aulas foram interrompidas pelo processo de ocupação do IFCH logo após a realização do Encontro Nacional da ANPOF, que desta feita teve três momentos dedicados ao Ensino Médio: o encontro do GT Filosofar e Ensina a Filosofar, o Simpósio O Ensino de Filosofia no Ensino Médio e a ANPOF – Ensino Médio, cuja programação foi apresentada aqui. Cabe destacar que a ANPOF elaborou, em seu último encontro, uma carta defendendo a educação pública brasileira, e esteve, na figura de seu presidente, presente no Senado durante a votação da MP do Ensino Médio. Ainda que dispersas, ocorreram diferentes mobilizações na tentativa de salvar a vida da filosofia no ensino médio por via da manutenção de sua obrigatoriedade no currículo.

Nada disso foi suficiente, como todos já sabemos.

O postiço governo atual insiste em propagandear que a reforma vai instaurar mais liberdade no cotidiano dos alunos, na medida em que terão a chance de escolher seus itinerários formativos.

Muitos entendem que isso tende a não ser bem o caso, pois as escolhas dos estudantes serão limitadas pelo que cada escola tiver para oferecer, não somente em termos de professorado, mas de condições materiais – imagine as escolas que não possuem laboratórios de ciências, por exemplo: como poderão oferecer “especialização” nesta área? Há muitas críticas. Destaco as elencadas aquiaqui e aqui. Aqui um recente programa do Canal Futura em que se debate a reforma.

Outros parecem ter esperança de que a escola poderá nos manter (se, literalmente, pudermos estar na base), sendo a nossa uma prática inclinada por um certo amor – e esse não se cobra.

Na comunidade filosófica estamos, costume nosso, divididos quanto ao fato de que somente como conteúdos e práticas é que Filosofia (e Artes, e Educação Física e Sociologia) está garantidas na fase média da vida escolar brasileira. Não tratarei dessa divisão aqui, porque este post afinal objetiva apresentar em um só os melhores textos produzidos como trabalho do SEF.

Os alunos que se dispuseram a recuperar as aulas interrompidas pelas ocupações no escaldante verão porto-alegrense seguiram apresentando os capítulos de Ensino de filosofia e currículo, de Rona Rocha principal leitura da disciplina, combinada com leituras de introdução à didática e de textos de professores e colegas brasileiros (Charles Feitosa, Danilo Marcondes, Filipe Ceppas, Pedro Gontijo, Sílvio Gallo, Zita Ana Lago Rodrigues, além de Desidério Murcho), e produzindo os ensaios que deveriam responde-la articulando as leituras do semestre e os principais elementos do contexto atual: a transformação da MP 746 em Lei 13.415, os desafios que se nos colocam daqui para a frente e também os textos da coluna ANPOF que, nos últimos meses, engendraram um debate de alcance e qualidade a meu ver inéditos sobre a filosofia e seu ensino no Brasil (os textos de Eduardo Barra, João Vergílio Cuter, Fábio Gai Pereira, Konrad Utz, dentre outros.

A ordem de publicação dos textos seguiu somente um critério, o de qual texto reescrito (após minha avaliação) chegava primeiro em minha caixa de mensagens.

“A filosofia como disciplina curricularmente obrigatória – ruína de estrada romana”, por Ronald Augusto.

“Funções para a filosofia no ensino médio brasileiro”, por Marcelo Reis Fraga.

A filosofia deve participar da vida escolar como disciplina curricularmente obrigatória?“, por Rafael Bittencourt dos Santos.

Considerações sobre o lugar da filosofia no currículo escolar“, por Augusto Lucas Valmini.

Pela Filosofia como disciplina escolar obrigatória“, por Thiago Gruner.

Não seria preciso dizer que os textos, todos, destinam-se à excelência, posto que respondem o questionamento propulsor mobilizando fatos e ideias em sequências argumentativas de parelho rigor e distinto estilo. Talvez em virtude de te-los frequentado como professora, a mim soa em cada uma voz. Até mesmo ecoaram, há resposta a um deles sendo elaborada.

Já se sugeriu também que esses textos “virassem publicação”. Esta postagem serve para lembrar aos leitores que eles já são isso: estão disponíveis a quem tenha acesso à rede. Eventualmente se pode editar os textos, em formato amigável a quem goste de papel.

Nem tudo precisa virar Lattes. Bom mesmo é mais gente entrando nessa conversa, como numa dança.

Agradeço aos alunos que acompanham SEF e a todos os leitores, por manter a atenção que estes textos lhe chamou e por, quem sabe, chamar mais gente (para pista, palco ou plateia).

Sem Título.

Foto: Daniel Nascimento