Revisão dos conteúdos do ensino básico no superior – uma polêmica?

Foi noticiado hoje pelo jornal O Estado de São Paulo que

“O Conselho Estadual de Educação (CEE) de São Paulo deliberou que, a partir do próximo ano, os cursos de Pedagogia e as Licenciaturas oferecidas pelas universidades estaduais reservem parte da carga horária para que os alunos “revisem e enriqueçam” os conteúdos do ensino fundamental e do médio. Coordenadores e diretores dessas graduações na USP, Unicamp e Unesp manifestaram preocupação com a nova regra, sob o risco de engessar os projetos político-pedagógicos e ferir a autonomia universitária ao fixar os currículos de seus cursos e programas.

Dentre as novas diretrizes curriculares estabelecidas pelo CEE ficou definido que os cursos de Pedagogia, nos quais são formados docentes para atuar na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental (do 1.º ao 5.º ano), terão de destinadas 600 horas para a revisão dos conteúdos – 18,75% da carga horária de 3,2 m

il horas. Para as licenciaturas, que formam professores para atuar nos anos finais do ensino fundamental (do 6.º ao 9.º ano) e médio, serão 200 horas para a revisão dos conteúdos da área ou disciplina em que vão lecionar e estudos da Língua Portuguesa.

 A deliberação anterior, de 2014, dizia – sem especificar uma obrigatoriedade de carga horária – que os cursos deveriam ter como objetivo “ampliar e aprofundar conhecimentos relativos a áreas relacionadas ao trabalho pedagógico”.

Bernadete Gatti, presidente do Conselho, diz que o conteúdo a ser revisado ficará a cargo dos cursos de graduação. “É importante ter a recuperação. Quando o aluno chega à universidade, esse conteúdo do ensino básico já está distante. Nota-se que alunos de Pedagogia, por exemplo, têm algumas dificuldades com Matemática e eles vão ter de ensinar operações, frações. Conceitos que não estão muito claros na memória”, diz.

Questionamentos. Uma carta das Comissões Coordenadoras das Licenciaturas e Pedagogia da USP questiona a “naturalização” do CEE com as “fragilidades da educação básica”, com a indicação de que seus cursos devam ter espaço de revisão dos conhecimentos dessa etapa de ensino. “(Para a Pedagogia) são exigidas 600 horas, quase um quinto do curso para revisão. Esse não pode ser o papel de um curso de formação de professores”, afirma Marcos Neira, presidente da Comissão de Graduação da Faculdade de Educação da USP.

Um novo projeto político-pedagógico para a Pedagogia da USP foi apresentado ao CEE em janeiro e aguarda aprovação. “Essa nova deliberação nos preocupa pelo risco ao nosso projeto, que responde à expectativa do professor que queremos formar e acreditamos que a sociedade almeja”, diz Neira.

“É um descalabro, uma compreensão equivocada e ultrapassada de formação de professores. Não há dicotomia entre os conceitos curriculares da educação básica e o ensino da Pedagogia, eles devem ser aprendidos juntos, como já fazemos. Não dá para estudar alfabetização sem estudar ortografia”, diz Dirce Zan, diretora da Faculdade de Educação da Unicamp. O curso de Pedagogia da instituição teve o currículo revisado e aprovado pelo CEE em 2016.

Em nota, a Pró-Reitoria de Graduação da Unesp disse que as novas normas podem contribuir para a formação docente desde que “não sejam interpretadas como um engessamento da carga horária dos cursos”, mas como oportunidade de aumentar a personalização dos currículos. A universidade disse que nenhum de seus 183 cursos contempla explicitamente revisão de conteúdos da educação básica, mas reconhece que “muitos alunos não têm embasamento suficiente para acompanhar” a graduação e, por isso, oferece monitorias e tutorias como atividades extraclasse.”

Notas brevíssimas:

a) é simplesmente escandaloso se currículos de cursos superiores de Pedagogia, que formam professores para alfabetizar crianças e introduzi-las no mundo dos conhecimentos valiosos, não tenham espaços para a revisão de conteúdos básicos a serem ensinados;

b) a polêmica em torno desta decisão provavelmente misturará de modo nefasto política partidária e didática (muitas falas  sobre não haver “neutralidade” em nenhuma dimensão da vida humana e outros blablablás);

c) dados a) e b) acima, Quando Ninguém Educa, o novo livro do Professor Ronai se torna, a cada segundo, mais importante de ser lido e discutido de modo sério e justo.

 

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Quando ninguém educa – questionando Paulo Freire

Está disponível para pré-venda o novo livro do Professor Ronai Rocha, o Quando ninguém educasubintitulado questionando Paulo Freire. 

(Informação prática: professores recebem 20% de desconto no site da Editora Contexto.)

Acompanhei a confecção deste livro desde que era ideia ainda, passando por quando tinha outro título, acho que a partir de fins de 2015, até chegar à última versão e a notícia da impactante capa. Estávamos, em 2015, em meio ao processo de crítica à primeira versão da BNCC, quando – como conta Ronai na Introdução, que pode ser acessada aqui – uma importante associação nacional de educação cometeu uma dura crítica à empreitada mesma de construção de uma Base Curricular mínima para a escola brasileira.

Conforme fui lendo as diferentes versões do texto neste último par de anos – sempre contente pela confiança do maestro em minha capacidade leitora – não só aprendi muito sobre crítica, epistemologia, pedagogia, história das ideias, sobre a universidade brasileira, sobre Paulo Freire (seus contextos e sectos, seus textos e ideias), mas sobre como acertar a letra e o passo de um texto que, por sua natureza, estilo e substância, já se sabia desde sempre que causaria as mais diversas reações. Estou segura de que a variedade delas incluirá muitos “não li e não gostei”, algumas leituras oportunistas e outras tantas dedicadas e justas.

A lida cotidiana é bastante e intensa por estes dias, mas já está prometida uma resenha do livro para meados de agosto, quando espero poder visitar Santa Maria para o lançamento.

Até lá, deixo o convite para que o livro seja lido por todos os interessados em educação em nosso país, segundo os mesmos rigor, acurácia e arrojo com os quais foi escrito – ainda que, quase que de modo inescapável, gere sentimentos conflitantes, do mesmo modo como foi escrito.

Em tempos de ruptura e reorganização de forças sociais, políticas e também acadêmicas, como os que estamos vivendo, este livro nos oferece a perspectiva de sacudir certas poeiras (seria melhor dize-lo: movimentar certas placas tectônicas?) que há muito nos impedem de ver melhor onde estamos, como aqui chegamos, bem como por onde e por que seguir.

Em tempo, a editora apresentou o livro assim (o grifo da frase final é meu):

A crise na educação brasileira é inegável. A baixa qualidade das aprendizagens, a estagnação do desempenho escolar nos testes padronizados, a pouca relevância do aumento dos anos de estudo na vida do aluno, a crescente evasão escolar em todos os níveis, o aumento da distorção idade-série e tantos outros problemas são evidências disso. Mas onde se localizam as raízes teóricas da atual crise educacional que vivemos? Neste livro, o professor Ronai Rocha se dedica a desvendar e a compreender o pensamento teórico dominante no cenário educacional e pedagógico brasileiro. O autor realiza um movimento esclarecedor sobre as raízes da reflexão sobre educação no país, que incidem até hoje na formação de nossos professores. E mostra como uma maneira peculiar de ler Paulo Freire afeta o ensino no Brasil.

Viceja

Ocorre daqui a alguns dias na UFRGS o IV Workshop de Filosofia e Ensino. Dadas as atuais circunstâncias brasileiras, nas quais se ameaça tanto, inclusa a vida de nossa atividade como disciplina obrigatória nas escolas – e mesmo a realização plenamente adequada de eventos como este, dada a escassez de recursos – o tema deste ano é “Qual Filosofia? Qual Ensino Médio?”.

No ano que vem completam-se 10 anos de nossa inserção como disciplina obrigatória nos currículos do ensino médio brasileiro, e nesta década muitas coisas importantes foram feitas para discutir e aprimorar o ensino de filosofia no Brasil – fortalecimento do GT da ANPOF Filosofar e Ensinar a Filosofar (que este ano realiza a quarta edição de seu encontro), desenvolvimento das Olimpíadas de Filosofia em diversos estados, criação da ANPOF/Ensino Médio, criação do PROF-Filo, realização de diversas atividades e encontros relacionados aos PIBID Filosofia (acaba de ocorrer o III Encontro, em Natal). Isso sem falar nos frutos da árvore editorial, e os da preparação para exames de ingresso etc..

O evento da UFRGS, cuja programação completa pode ser acessada aqui, é uma tentativa de mostrar a importância de conversas sobre nós, professores de filosofia, e nossas relações curriculares na e com a escola.

 

UFRGS/Campus do Vale – Porto Alegre/Brasil

A Filosofia na Base, ou no meio do redemunho

Noticiou-se na semana passada a entrega da terceira versão da BNCC por parte do atual dirigente do Ministério da Educação (MEC) ao Conselho Nacional de Educação (CNE). Aqui se pode acessar a notícia, no site da câmara.

Antes desta entrega Maria Helena Guimarães Castro já havia, em videoconferência a jornalistas especializado em educação (JEDUCA), apresentado certas sinalizações acerca do documento, que se refere tão somente ao nível fundamental de ensino básico, excluindo-se o médio.

A Associação Nacional da Pós-Graduação em Educação divulgou esta nota preliminar, da qual destaco o seguinte trecho:

      A BNCC é um documento inspirado em experiências de centralização curricular, tal como o modelo do Common Core Americano, o Currículo Nacional desenvolvido na Austrália, e a reforma curricular chilena – todas essas experiências amplamente criticadas em diversos estudos realizados sobre tais mudanças em cada um desses países;
      A retirada do Ensino Médio do documento fragmentou o sentido da integração entre os diferentes níveis da Educação Básica, ao produzir centralização específica na Educação Infantil e Ensino Fundamental;
      É preocupante também a retomada de um modelo curricular pautado em competências. Esta “volta” das competências ignora todo o movimento das Diretrizes Curriculares Nacionais construídas nos últimos anos e a crítica às formas esquemáticas e não processuais de compreender os currículos;
       A retirada de menções à identidade de gênero e orientação sexual do texto da BNCC reflete seu caráter contrário ao respeito à diversidade e evidencia a concessão que o MEC tem feito ao conservadorismo no Brasil;
      A concepção redutora frente aos processos de alfabetização e o papel da instituição escolar na educação das crianças.

Os jornalistas do JEDUCA também se manifestaram, mas sobre o modo como o MEC procedeu com eles: deu acesso, com embargo, a uma versão do documento que afinal não foi aquela entregue ao CNE – nesta, expressões como “orientação sexual” não ocorrem mais (diz-se que isso ocorreu após reunião de dirigentes do MEC com representantes da assim chamada bancada evangélica do congresso nacional). mas acabou  A Base do Ensino Médio, ao que tudo vem indicando, será entregue somente em fins de 2017.

Para refletir sobre esta versão do documento, recomendo tanto este texto publicado no Nexo. Sobre a a exclusão do Ensino Médio, o papel das instituições privadas, e ainda outros aspectos extremamente relevantes, confiram as ponderações do colega Edgar Lyra neto (PUC-Rio, que participava da confecção da parte relativa à Filosofia até a ruptura no comando do governo federal) no site da ANPOF.

Há muitíssimo a discutir acerca de todo este processo, que se ganhou algo em qualidade (antecedente a ser verificado, com critérios claros e discussões públicas e sérias), certamente perdeu em caráter democrático.

Os impactos para a formação docente, por exemplo, ainda são obscuros. (Algumas universidades já estão adaptando os currículos de suas licenciaturas à resolução 02/2015 do CNE enquanto outras, mais prudentes, aguardam a versão completa da BNCC e novos posicionamentos do MEC para saber se o que a Lei 13.415 diz sobre a formação docente não é incompatível com aquela resolução.)

E a Filosofia?

Por ora, até onde pude saber em conversas com colegas de outros estados, as escolas públicas permanecem conosco em suas práticas curriculares.

Em breve podemos estar na rua, no meio do redemunho.

Teremos sido interrompidos por uma Base no meio do caminho?

 

Redemoinho, Xiologravura de Arlindo Daibert

P.S.: Na semana passada também se soube desta Comunicação da ONU sobre o famigerado programa (projeto? como chamar?) Escola Sem Partido. E, sobre o ensino superior, Lilia Schwarz refletiu sobre a situação da UERJ como prenúncio de novos e piores tempos para Universidade brasileira no Nexo.

 

 

Outros revérberos

Há poucos dias soube, com intenso sentimento de júbilo e por intermédio da colega Carmelita Britto (Departamento de Filosofia da UFG), que o núcleo que coordena os estágios do curso de licenciatura propôs, juntamente com estudantes da disciplina de Estágio III, um Seminário de Estudos sobre os textos dos estudantes de Seminário de Ensino em Filosofia que publiquei aqui no blog. Abaixo, o cartaz do evento.

 

Destaques da programação da ANPOF-Ensino Médio

Ocorre na cidade de Aracaju, entre os dias 17 e 21 e outubro, o XVII Encontro Nacional da ANPOF.

Pela terceira vez ocorrerá, ao mesmo tempo, a ANPOF do Ensino Médio. (Vale notar também foram publicados dois textos sobre ensino de filosofia na Coluna ANPOF: de João Vergílio Cuter e de Eduardo Barra. Vale a leitura crítica, que eventualmente tentarei publicar.)

A ANPOF-EM tem diversas atividades.

Uma delas está associada às Conferências da ANPOF, e ocorrerá na tarde de quarta-feira, às 14: O Ensino de Filosofia no Ensino Médio, com os professores Edgar Lyra Neto (PUC-Rio), Edmilson Paschoal (UFPR), Telma Birchal (Unicamp) e Marcelo Guimarães (UNIRIO). Creio que todos os interessados na polêmica MP do EM devem ficar atentos a esta conferência.

Ofereceremos cinco Minicursos (orientações para inscrições, que vão só até amanhã, 15/10, podem ser acessadas aqui):

Filosofia, do ensino à ensinagem (Junot Cornélio Mattos/UFE)

A Potência Interdisciplinar da Lógica no Ensino Médio (Gisele Secco/UFRGS e Nastassja Pugliese/UGA)

A leitura de textos filosóficos no Ensino Médio (Marta Alencar/EA[USP)

Perspectivas Africanas para o ensino de filosofia (Wanderson do Nascimento/UNB)

Michel Foucault: História do Pensamento Filosófico x História da Filosofia (Ernani Chaves/UFPA)

As Comunicações de professores do ensino médio, sobre os temas currículo, recursos didáticos, formação de professores e tema livre, ocorrem na terça-feira, dia 18, das 10:30 às 18:30.

O Simpósio da ANPOF-EM, intitulado Ensino de Filosofia e Pesquisa: possibilidades no Ensino Médio, ocorrerá na quinta-feira às 16h, e nele falarão Edgar Lyra Neto (PUC-Rio), Gisele Secco (UFRGS) e Ronai Pires da Rocha (UFSM).

Abaixo um cartaz com os títulos das comunicações.

programacao-final

Mais detalhes, incluindo-se os locais das apresentações e a programação do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, encontram-se na programação completa do encontro da ANPOF.

 

P.S.: Infelizmente não tenho podido, por falta de tempo e esperança, dar sequência à recolha de informações sobre o andamento das discussões acerca da reforma do ensino médio, aquela que está sendo imposta sem diálogo com os membros da sociedade mais capazes de pensar em soluções para os problemas que estão mais do que caindo de maduros, apodrecendo a relação dos jovens com a escola – como por exemplo, aquele sobre o qual quase não se escuta falar: que tal pagar melhor os professores? Deixo aqui o link para a entrevista do Ministro da Educação ao programa Roda Viva. Eu mesma não assisti mas pelo naipe dos entrevistadores, consigo imaginar como foi.

P.S2.: Esperanças podem ser reascendidas, mostrando que a relação entre jovens e escolas não está tão apodrecida assim, por causa disso.

 

 

 

De algumas reações à MP do EM

Após uma semana da publicação da famigerada MP, além do PSOL, também a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) entrou com uma ação direta de inconstitucionalidade (ADI) no STF contra as alterações propostas pelo governo (d)ex-interino. Com relação a ADI do PSOL o ministro E. Fachin já estipulou prazo de dez dias para que o presidente e o Congresso expliquem o que fizeram.

Noticiou-se ainda a recepção de mais de 500 emendas parlamentares ao texto, que pelo seus teores mostram que nossos legisladores poderiam ler melhor e pensar melhor antes de meter a colher em assuntos que não são objeto de suas atenções cognitivas.

No site e-cidadania, do Senado Federal, a consulta pública sobre a MP ainda está aberta e a rejeição é muito significativa. (Não que ultimamente se preze a opinião do demos, mas…)

A propósito, é bom lembrar que tramita no Congresso um projeto de lei que versa sobre a aprovação da BNCC pelo congresso (a BNCC é documento para o qual a MP joga a responsabilidade de determinar as disciplinas obrigatórias, conforme se compreende bem pela leitura deste texto). Como se pode verificar no site da Câmara, o PL teve parecer favorável do relator – aprovado dia 30 de agosto, 15 dias após a última vez em que se falou do outro PL, cujo teor é similar ao da MP, elaborado pela Comissão Especial destinada a promover estudos e proposições para a reformulação do ensino médio. O relator do PL que atribui ao Congresso a prerrogativa de aprovar a BNCC fala em seu texto que é preciso olhar ara os lugares em que reformas curriculares eram certo. OK, OK. Seja como for, consta que em nenhum país do mundo as bases curriculares foram discutidas no congresso, sabiam? Agora junte estas informações com aquela sobre o perfil extremamente conservador, quando não mafioso, de nosso congresso e imagine o que pode vir por aí.

Mas voltando a falar das reações ao abrupto e temeroso ato de publicação desta MP, não vejo quase ninguém abordar a parte do documento que versa sobre a Política de Fomento, a previsão de repasse de recursos do MEC para os Estados, mesmo quando existem avaliações datadas da época da publicação da tal “Ponte para o futuro” (o programa de governo dos impichadores), de acordo com as quais o horizonte é de privatização também no ensino básico. Exceção a esta tendência de ignorar parte importantíssima do texto da MP encontra-se na excelente Nota Pública do Fórum Nacional de Educação, que pode ser acessada aqui.

A ANPOF, que este ano pela terceira vez realizará também a ANPOF – Ensino Médiodivulgou em sua página um manifesto contra a MP e sabe-se de articulações de estudantes e professores de todas as áreas em torno de mobilizações contra a implementação desta reforma.

Vamos conseguir nos entender (educadores, professores, estudantes, aprendizes, trabalhadores em educação, de todos os níveis) o mínimo necessário para juntos combater mais esse arbítrio?

Se sim, como o faremos?

ÁrvoreLivro

A MP, o PL, o ensino médio e a desinformação

Há alguns dias foi noticiada, por parte do governo que há pouco e triste tempo deixou de ser interino, a publicação de uma medida provisória (MP) que reforma o ensino médio brasileiro. Ela foi publicada numa edição extra do Diário Oficial da União, de sexta-feira, dia 23 de setembro de 2016.

Aqui se pode baixar o texto da MP, para que se leia e se tente entender o que propõe. Acredito ser da maior importância o esforço por compreensão do texto.

Por outro lado, e mais importantemente, como propus em minha última aula de Seminário de Ensino em Filosofia, também acredito que se deve perguntar por que uma MP, quando já tramita no congresso, desde 2013, um projeto de lei (PL) versando sobre tema quase idêntico. O texto deste PL pode ser baixado por aqui.

Quais as semelhanças e diferenças, em forma, contexto e conteúdo, entre os dois documentos?

A mim quer parecer que qualquer debate sobre o assunto precisa tentar responder a esta pergunta, sob pena de descolamento da realidade e consequente dispêndio de energia e tempo em conversas que em nada auxiliarão no movimento de tentar barrar esta medida autoritária e precipitada. A propósito, o PSOL entrou hoje com uma ação no STF contra a MP.

Outro ponto importante é o seguinte: se a MP faz, como faz, pesar a importância da BNCC, em que pé andam as discussões sobre este documento? Será também finalizado sob a aura de imposição da famigerada MP?

São tempos difíceis. É preciso estar atento e forte. E tentar não temer.

Um bom remédio contra o medo é a busca das informações verdadeiras e bem encadeadas que sirvam para bons debates e bons combates. O resto é confusão, que só auxilia os que querem seguir usurpando o que der para usurpar.

Filosofia, Licenciatura, Currículo: um Colóquio

Na terça-feira passada (12 de abril de 2016) ocorreu o evento “Filosofia, Licenciatura e Currículo”, organizado pelo Núcleo Docente Estruturante do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria, especialmente pelo colega Renato Fonseca.

Col

O evento foi pensado “para discutirmos os desafios da organização curricular das licenciaturas em Filosofia, com base na elaboração teórica sobre o tema e em experiências concretas de ensino.”

Estes desafios, mencionados na descrição do evento, dizem respeito à necessidade de adequação da formação de professores à Base Nacional Comum Curricular, que por sua vez se encarnou na Resolução 02/2015 do Conselho Nacional de Educação, prescrevendo a adição de 400 “horas práticas” nos currículos de todas as licenciaturas brasileiras.

Abri a jornada de trabalhos com uma palestra intitulada “Filosofia, Ensino, Currículo: Algumas Projeções”. Após uma introdução situando conceitualmente as práticas que estamos realizando no PIBID UFRGS e a reforma que estamos pensando para a licenciatura em Filosofia da UFRGS, passei aos relatos e seus desenlaces

O professor Ronai Rocha seguiu os trabalhos com a palestra ” ‘Aquele filósofo com nome de chinelo’ E Como Seria um Currículo Verdadeiramente Voltado para o Ensino Médio Brasileiro”, na qual explorou ideias que ele vem engendrando há tempos, sobre critérios para desenhos curriculares orgânicos e epistemologicamente pensados. A referência ao “filósofo com nome de chinelo” diz respeito ao contexto de troca de cartas entre Ronai e a filha de uma ex-aluna da licenciatura, que costumava frequentar as aulas com sua mãe e certa vez, quando já tinha 11 anos, “(…) me lembrou um dia que eu estava na aula com o professor Robison ele disse de desmanchar uma casa e usar os mesmos tijolos para fazer outra, era sobre aquele filósofo com cara de brabo que a tia Cecilia gostava, que tem o nome parecido com nome de chinelo.” Acho que Ronai fez referência a esta estória da Laura para nos provocar com relação ao quanto de interesse questões como a do barco de Teseu podem ter para crianças, mas também para refletirmos sobre se os problemas filosóficos, tratados em contextos escolares de nível fundamental, precisam ser nomeados com nomes de filósofos (muitas vezes nos preocupamos tanto em “vender” uma determinada filosofia que falamos mais dos filósofos de nomes esquisitos do que de suas ideias e argumentos, não é mesmo?)

Depois do almoço o Colóquio prosseguiu com mais três momentos: a palestra da Prof.ª Elisete Tomazetti, da UFSM – na qual ela fez um resgate histórico sobre a composição curricular do curso de licenciatura em filosofia da UFSM e propôs diversas questões para pensarmos as novas composições, daqui pra frente; um momento de escuta dos estudantes e alguns egressos do curso, para que pudessem compartilhar ideias sobre o currículo pelo qual foram formados, suas falhas, positividades e melhoramentos possíveis; e, por fim, o colega Juliano do Carmo, da UFPel, contou-nos sobre o processo de instauração e manutenção do curso de licenciatura em filosofia na modalidade EAD. A fala de Juliano foi muito importante, especialmente no sentido do reforço da necessidade de bons planejamentos para cursos – tanto presenciais como EAD.

Apesar de haver colegas, especialmente das Faculdades de Educação, que alimentam certo desprezo por discussões acerca de planejamento e desenvolvimento de estratégias metodologicamente robustas de ensino (incluindo-se debates sobre avaliação), a fala de Juliano mostrou a tarefa de pensar em nossas próprias estratégias didáticas pode muito bem ser realizadas por gente de nossos departamentos, obrigada. (Este não é o lugar de contra-argumentar, mas deixo indicado que em geral o referido desprezo se enuncia com ares de apreço pelas subjetividades, diferenças, e ouras categorias que, mesmo relevantes, não ajudam muito a preparar professor algum. Não é de se espantar, como mostrará o novo livro do Professor Ronai, que tenhamos chegado a este ponto – em que quando demandamos preparação e treino para nossos futuros professores somos taxados de utilitaristas em busca de repostas à questão “como fazer?” O que deve sim nos preocupar é prosseguimento desse estado das coisas, e por isso os departamentos de filosofia precisam assumir de uma vez por todas a responsabilidade pela formação docente, como aliás já o fazem outros departamentos em muitas universidades do Brasil.)

Os estudantes e egressos da licenciatura em Filosofia da UFSM ocupando o espaço de fala no Colóquio.

Alguns estudantes e egressos da licenciatura em Filosofia da UFSM ocupando o espaço de fala no Colóquio.

O que ficou mais deste dia, para mim, foi esta segurança: o desamparo que muitos alunos sentem ao concluir suas licenciaturas pode ser mitigado se os cursos de filosofia chamarem para si a responsabilidade de pensar a docência, o currículo, a didática.

Esperamos poder realizar mais desses colóquios e consolidar uma rede de pesquisa em didática da filosofia à altura dos desafios que temos pela frente.

Diálogos com a escola: experiências em formação continuada em filosofia na UFRGS

“Pode-se dizer, de um modo geral, que a organização em dois volumes destes Diálogos marca o início de uma nova etapa das relações entre a Universidade e a Escola no que diz respeito ao cativante tema ‘Ensino de filosofia’. A especificidade de tais relações aparece já no título mesmo da iniciativa que resultou na presente publicação, qual seja, o Curso de Formação Continuada para Professores de Filosofia do Ensino Médio do Rio Grande do Sul – promovido pelo Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, nas dependências da mesma, entre os meses de novembro de 2012 e julho de 2013.

Ora, em se tratando dos primeiros movimentos de um diálogo que se pretende prolífico e duradouro, nada mais razoável do que registrar o modo como ocorreram as aproximações entre as duas esferas educacionais – Universidade e Escola. O registro é, portanto, duplo: no primeiro volume, publicam-se os textos relativos às aulas ministradas por professores universitários, secundaristas e bolsistas de pós-graduação em filosofia para os professores do Ensino Médio gaúcho nos primeiros meses da formação. Já no segundo volume, publicamos alguns planos de aula dos professores em formação continuada – planos que permitem a observação da multiplicidade de perspectivas filosóficas que se pretendeu fornecer aos docentes do nível médio, objetivando o elenco das mais variadas possibilidades de abordagem didático-filosóficas – e que correspondem às atividades realizadas nos meses finais da formação.

É certo que se poderia objetar à estratégia escolhida, uma vez reconhecido o fato de que boa parte dos docentes que procuraram o Cursonão possui formação específica em Filosofia – e que, portanto, apresentar tantas visões distintas poderia obscurecer os resultados desta iniciativa formacional. Parece-me, pelo contrário, que uma tal objeção não leva em conta justamente o fato de que a filosofia se faz de vários modos, e a busca por diretrizes didáticas precisas – donde a importância de considerações de ordem metodológica ou instrumental – não pode iniciar sem o reconhecimento, como de um marco zero, desse fato.

Assim, ao percorrer as páginas destes dois volumes, o leitor deve lembrar que se trata, como se disse, do registro dos primeiros movimentos institucionais de diálogo entre o Departamento de Filosofia da UFRGS e os professores de Filosofia das Escolas do nível médio gaúcho e, por outro lado, embora talvez mais implicitamente, que esses registros servem como uma espécie de chamado para que os interessados no ensino de Filosofia venham a contribuir nas edições futuras e desejáveis de mais Cursos de Formação Continuada como o que resultou nestes volumes.

Que a plurivocidade de perspectivas reunidas aqui possa, portanto, incitar melhoramentos em nossas conversas sobre Ensino de Filosofia e que possamos cada vez mais e de modo mais filosófico refletir sobre nossas práticas docentes levando em conta o saudável intercâmbio das experiências de Universidade e Escola – é o desejo dos organizadores, gratos, vale dizer, pela valorosa participação dos docentes nesse movimento de aproximação do qual certamente temos muito o que aprender.”

***

Este foi o brevíssimo prefácio que escrevi para o resultado do Curso de Formação Continuada em Filosofia para professores do Ensino Médio no Rio Grande do Sul, realizado entre 2012 e 2013 sob a coordenação da professora Priscilla Tesch Spinelli, colega do Departamento de Filosofia da UFRGS. O curso é uma das parcelas do FORPROF UFRGS, que por sua vez faz parte do Plano Nacional de Formação dos Profissionais da Educação Básica do Ministério da Educação, o PARFOR.

Acompanhar os movimentos finais do curso, a convite da então nova colega (minha chegada na UFRGS ocorrera em junho de 2013), foi minha primeira atividade na nova casa. Os encontros aconteciam aos sábados pela manhã e quando comecei a frequenta-los já haviam ocorrido todas as aulas com professores e pós-graduandos, tanto do Departamento de Filosofia da UFRSG quanto de instituições externas a UFRGS, oferecidas aos professores em formação. Trava-se, então, de uma série de apresentações destes professores, relatando suas experiências docentes e mostrando a montagem de planos de aula baseados nas aulas/palestras realizadas nos meses anteriores.

Foi uma ótima experiência conhecer estes professores, boa parte dos quais sem formação específica em Filosofia, e saber um pouco mais das delícias e dificuldades que experimentam no cotidiano das escolas.

Outra oportunidade que tive ao ingressar, ainda que informalmente, na equipe de trabalho do Curso, foi a de editoração dos trabalhos que acabam de ser publicados nos dois volumes de Diálogos com a escola: experiências em formação continuada em filosofia na UFRGS.

O primeiro volume contem os textos escritos pelos professores formadores:

 O lugar da filosofia no currículo escolar – Ronai Pires da Rocha

 Ensinar a filosofar – Desidério Murcho

Metafilosofia e ensino de filosofia – Leonardo Sartori Porto

Lições de Lógica para Análise de Inferências – Manuel Bauer Estivalet e Mitieli Seixas da Silva

Metafísica e Ciência – Mitieli Seixas da Silva e Sílvia Altmann

Conhecimento e Justificação Epistêmica em sala de aula – Giovanni Rolla, José Leonardo Annunziato Ruivo e Rafael da Silva Holsback

Ética: perspectivas sobre o seu ensino – Fábio Gai Pereira

Filosofia Política e Direitos Humanos – Nikolay Steffens e Alfredo Storck

Cinema e Filosofia: Por quê? Como? Onde? – Jônadas Techio

Filosofia e ficção: uma proposta pedagógica – José Eduardo Porcher

O segundo volume contem os planos de aula de alguns dos professores em formação:

Para que “serve” a filosofia? – Patrícia Trindade de Angelis

Lógica e Metafísica: uma introdução à argumentação – Juliana Paiva Soares

A Lógica na argumentação – Antônio Carlos Silveira dos Santos

Heliocentrismo X Geocentrismo: Paradigmas e Revoluções Científicas – Letícia Morales Brum

O Problema da Indução – Paulo Ricardo Kobielski

Determinismo e livre arbítrio – Thiago Delaíde da Silva

Utilitarismo em Ética – Michele Santos da Silva

Ética do Meio Ambiente – Marina Aparecida Madeira

A violência na escola e a ética: uma abordagem psicodramática – Ildo Ronan Vilarinho Júnior

Quais os critérios da ação correta? – Melissa Mayer Ferraz

Argumentação em Ética – Simone Maria Galli Primieri

Juízo de fato e de valor, subjetivismo e objetivismo – Rogério Sidnei Martins

Política e Cidadania – Ernesto Alba

A importância da participação política – Marcos Vinicius da Silva Goulart

Contratualismo Político – Débora Perroni Cassanego

 Esperamos que os textos e planos aqui publicados sejam para bom proveito de todos os interessados em questões de ensino de filosofia.