Nova política de formação docente do MEC, e um edital

Na efeméride “Dia do Professor” o ministro Mendonça Filho havia anunciado que em alguns dias o MEC lançaria uma nova política de formação docente, o Programa Nacional de Residência Pedagógica. Ele também diz, no vídeo, outras coisas que se não são propriamente falsas, são ao menos altamente contestáveis.

Ontem, dia 18 de outubro o MEC apresentou a Política Nacional de Formação de Professores com Residência Pedagógica.

Como eu havia antecipado ao final desta postagem, a existência do Programa de Residência Pedagógica interferirá na existência do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência, o querido PIBID – possivelmente “modernizando” o atual formato do Programa. Ainda não se tem detalhes sobre como esta transformação ocorrerá, nem sobre a Base Nacional Docente – que, imagino, deve estabelecer mínimos curriculares comuns para todos os cursos de licenciatura – mas é certo que já muitos de nós demonizam todas e cada uma das partes da iniciativa, por ter sido proposta pelo atual governo, cujas políticas (esta, por exemplo) não foram aprovadas pelo voto popular.

Há, certamente, muitos problemas que precisam ser discutidos e enfrentados. Para tal, entretanto, não me parece produtivo “dar murro em ponta de faca”, como se diz no interior do Rio Grande do Sul, insistindo em chorar pelas pedagogias derramadas sem um pingo de autocrítica sobre como os projetos (PIBID, mas não apenas) estavam sendo levados a cabo em cada IES. (Há muitos lugares em que as bolsas PIBID são meras ajudas de custo para universitários que não têm interesse em lecionar – nem os projetos conseguem despertar neles este interesse -, há muitos lugares em que não há qualquer avaliação adequada dos trabalhos realizados, e há muitas instituições que estão preocupadas em derivar da execução de seus PIBID publicações para a engorda de Lattes, e não para auxiliar os professores e gestores das escolas públicas a melhorar suas práticas.)

Um problema imediato é o seguinte: como ficam as reformas dos currículos das licenciaturas, realizadas e/ou em andamento, induzidas por esta eesolução do CNE? Devem ser suspensas, esperar pela tal Base Nacional Docente?

Muitos medos surgem, como os que se relevam nas perguntas: O antigo magistério retornará? (Isso é bom ou ruim?) Quais são tais “instituições formadoras” (fundações privadas incluem-se aí)? Seremos, professores das licenciaturas, substituídos por tutores de educação à distância? Sobrecarregados com a orientação de alunos residentes? Trata-se de um modo de baratear custos com salários de professores?

A ver.

Quiçá sem temer?

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Em outra nota, uma oportunidade: a Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP de Marília abriu edital para seleção de bolsista de Pós-Doc (PNPD). As linhas de pesquisa são as seguintes:

Linha 01 – Psicologia da Educação: Processos Educativos e Desenvolvimento Humano

Estudos e pesquisas sobre ensino-aprendizagem, desenvolvimento humano, vulnerabilidades, processos educativos e de avaliação, formação de educadores e profissionais, nas perspectivas da Psicologia e Epistemologia Genética, da Neuropsicologia, da Psicologia Cognitiva e Comportamental.

Linha 02 – Educação Especial 

A linha desenvolve pesquisas sobre questões que emergem na construção da educação inclusiva capaz de acolher alunato com ampla diversidade, com destaque para as diferenças decorrentes de alterações morfofisiológicas e as de natureza psicossocial e etnocultural. O equacionamento educacional dessas diferenças demanda a construção de fundamentos e conhecimentos, bem como o desenvolvimento de procedimentos e recursos – humanos e materiais – visando à provisão de serviços adequados para todos aqueles que, por meio de recursos convencionais, teriam dificuldades ou impedimentos para ter acesso à educação de qualidade.

Linha 03 – Teoria e Práticas Pedagógicas

Estudos teóricos e análise das práticas pedagógicas relacionadas com as diversas áreas do currículo da educação básica e superior, em especial com a Didática, a Metodologia, a Psicologia, a Linguística e as políticas educacionais no Brasil.

Linha 04 – Políticas Educacionais, Gestão de Sistemas e Organizações, Trabalho e Movimentos Sociais

A linha contempla  estudos e análises das políticas públicas e educacionais do Estado e de outros agentes sociais nos âmbitos nacional e internacional. Analisa teorias e práticas da administração, da avaliação educacional e da gestão, bem como a imbricação entre educação e trabalho,  a educação nos movimentos sociais, relações de gênero, direitos humanos e etnia na escola e em outros setores da sociedade.

Linha 05 – Filosofia e História da Educação no Brasil

A linha desenvolve estudos sobre a educação e o ensino dos pontos de vista filosófico e histórico. Do ponto de vista filosófico, privilegia a abordagem do problema da formação humana e as questões relativas ao ensino, em suas dimensões epistemológicas, éticas, políticas, estéticas e comunicativas. Na abordagem histórica, privilegia investigações sobre as Instituições Escolares, a Formação e a Profissão Docente e o Ensino de Língua e Literatura, inclusive alfabetização e letramento.

 

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Quando ninguém educa – questionando Paulo Freire

Está disponível para pré-venda o novo livro do Professor Ronai Rocha, o Quando ninguém educasubintitulado questionando Paulo Freire. 

(Informação prática: professores recebem 20% de desconto no site da Editora Contexto.)

Acompanhei a confecção deste livro desde que era ideia ainda, passando por quando tinha outro título, acho que a partir de fins de 2015, até chegar à última versão e a notícia da impactante capa. Estávamos, em 2015, em meio ao processo de crítica à primeira versão da BNCC, quando – como conta Ronai na Introdução, que pode ser acessada aqui – uma importante associação nacional de educação cometeu uma dura crítica à empreitada mesma de construção de uma Base Curricular mínima para a escola brasileira.

Conforme fui lendo as diferentes versões do texto neste último par de anos – sempre contente pela confiança do maestro em minha capacidade leitora – não só aprendi muito sobre crítica, epistemologia, pedagogia, história das ideias, sobre a universidade brasileira, sobre Paulo Freire (seus contextos e sectos, seus textos e ideias), mas sobre como acertar a letra e o passo de um texto que, por sua natureza, estilo e substância, já se sabia desde sempre que causaria as mais diversas reações. Estou segura de que a variedade delas incluirá muitos “não li e não gostei”, algumas leituras oportunistas e outras tantas dedicadas e justas.

A lida cotidiana é bastante e intensa por estes dias, mas já está prometida uma resenha do livro para meados de agosto, quando espero poder visitar Santa Maria para o lançamento.

Até lá, deixo o convite para que o livro seja lido por todos os interessados em educação em nosso país, segundo os mesmos rigor, acurácia e arrojo com os quais foi escrito – ainda que, quase que de modo inescapável, gere sentimentos conflitantes, do mesmo modo como foi escrito.

Em tempos de ruptura e reorganização de forças sociais, políticas e também acadêmicas, como os que estamos vivendo, este livro nos oferece a perspectiva de sacudir certas poeiras (seria melhor dize-lo: movimentar certas placas tectônicas?) que há muito nos impedem de ver melhor onde estamos, como aqui chegamos, bem como por onde e por que seguir.

Em tempo, a editora apresentou o livro assim (o grifo da frase final é meu):

A crise na educação brasileira é inegável. A baixa qualidade das aprendizagens, a estagnação do desempenho escolar nos testes padronizados, a pouca relevância do aumento dos anos de estudo na vida do aluno, a crescente evasão escolar em todos os níveis, o aumento da distorção idade-série e tantos outros problemas são evidências disso. Mas onde se localizam as raízes teóricas da atual crise educacional que vivemos? Neste livro, o professor Ronai Rocha se dedica a desvendar e a compreender o pensamento teórico dominante no cenário educacional e pedagógico brasileiro. O autor realiza um movimento esclarecedor sobre as raízes da reflexão sobre educação no país, que incidem até hoje na formação de nossos professores. E mostra como uma maneira peculiar de ler Paulo Freire afeta o ensino no Brasil.

Destaques da programação da ANPOF-Ensino Médio

Ocorre na cidade de Aracaju, entre os dias 17 e 21 e outubro, o XVII Encontro Nacional da ANPOF.

Pela terceira vez ocorrerá, ao mesmo tempo, a ANPOF do Ensino Médio. (Vale notar também foram publicados dois textos sobre ensino de filosofia na Coluna ANPOF: de João Vergílio Cuter e de Eduardo Barra. Vale a leitura crítica, que eventualmente tentarei publicar.)

A ANPOF-EM tem diversas atividades.

Uma delas está associada às Conferências da ANPOF, e ocorrerá na tarde de quarta-feira, às 14: O Ensino de Filosofia no Ensino Médio, com os professores Edgar Lyra Neto (PUC-Rio), Edmilson Paschoal (UFPR), Telma Birchal (Unicamp) e Marcelo Guimarães (UNIRIO). Creio que todos os interessados na polêmica MP do EM devem ficar atentos a esta conferência.

Ofereceremos cinco Minicursos (orientações para inscrições, que vão só até amanhã, 15/10, podem ser acessadas aqui):

Filosofia, do ensino à ensinagem (Junot Cornélio Mattos/UFE)

A Potência Interdisciplinar da Lógica no Ensino Médio (Gisele Secco/UFRGS e Nastassja Pugliese/UGA)

A leitura de textos filosóficos no Ensino Médio (Marta Alencar/EA[USP)

Perspectivas Africanas para o ensino de filosofia (Wanderson do Nascimento/UNB)

Michel Foucault: História do Pensamento Filosófico x História da Filosofia (Ernani Chaves/UFPA)

As Comunicações de professores do ensino médio, sobre os temas currículo, recursos didáticos, formação de professores e tema livre, ocorrem na terça-feira, dia 18, das 10:30 às 18:30.

O Simpósio da ANPOF-EM, intitulado Ensino de Filosofia e Pesquisa: possibilidades no Ensino Médio, ocorrerá na quinta-feira às 16h, e nele falarão Edgar Lyra Neto (PUC-Rio), Gisele Secco (UFRGS) e Ronai Pires da Rocha (UFSM).

Abaixo um cartaz com os títulos das comunicações.

programacao-final

Mais detalhes, incluindo-se os locais das apresentações e a programação do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, encontram-se na programação completa do encontro da ANPOF.

 

P.S.: Infelizmente não tenho podido, por falta de tempo e esperança, dar sequência à recolha de informações sobre o andamento das discussões acerca da reforma do ensino médio, aquela que está sendo imposta sem diálogo com os membros da sociedade mais capazes de pensar em soluções para os problemas que estão mais do que caindo de maduros, apodrecendo a relação dos jovens com a escola – como por exemplo, aquele sobre o qual quase não se escuta falar: que tal pagar melhor os professores? Deixo aqui o link para a entrevista do Ministro da Educação ao programa Roda Viva. Eu mesma não assisti mas pelo naipe dos entrevistadores, consigo imaginar como foi.

P.S2.: Esperanças podem ser reascendidas, mostrando que a relação entre jovens e escolas não está tão apodrecida assim, por causa disso.

 

 

 

Diálogos que nossos alunos podem ler

Só hoje descobri que o livro organizado por Márcia Ivana Lima Silva, Pietra Cassol Rigatti e Filipi Róger Vuauden (do PET-Letras UFRGS) já está disponível.
É o segundo volume de Livros que seu aluno pode ler: formação do leitor na educação básica, derivado de um ciclo de palestras organizado pelo mesmo PET Letras nos últimos anos. Da apresentação do volume, retirei este significativo excerto:
“A grande inquietação do projeto ainda é a noção de matéria como ‘coisa em si’, perdendo a escola a oportunidade de personalizar os discursos e trazer os diversos autores que pensaram e resolveram (ou não) os problemas da humanidade no decorrer dos tempos. Um dos fatores para esta prática é o apoio da aprendizagem apenas no livro didático, tipo de livro sem autor por excelência; ou apoiá-la tão somente no discurso do professor, que reveste este conhecimento de uma natureza oral, quando ele é um conhecimento depositado, de alguma forma, numa tradição escrita (guardadas as especificidades históricas de cada disciplina). Sendo assim, o convite aos especialistas que participaram do ciclo de debates pressupõe a leitura de textos autorais, para além daquilo que os livros didáticos apresentam em cada matéria. A ideia de que a leitura é função de todas as disciplinas é igualmente defendida no Núcleo de Integração Universidade-Escola, da UFRGS, que já organizou dezesseis edições de um livro chamado Ler e escrever: compromisso de todas as áreas, publicado por nossa editora universitária, compilação de artigos de professores das várias disciplinas sobre sua responsabilidade com relação à aprendizagem da leitura e da escrita.

O presente trabalho, que fecha o projeto de publicação de dois volumes do Livros que seu aluno pode ler, traz a contribuição de especialistas que apresentaram textos específicos que podem ser estudados, com sucesso, dentro do contexto escolar. Agradecemos imensamente aos autores dos artigos que aqui publicamos, por sua disposição para participarem das mesas-redondas e, principalmente, por seu tempo para prepararem as palestras e, posteriormente, para a revisão dos textos.”

Livrosqueseualuno

Meu texto, “Diálogos que nossos alunos podem ler”, despretensioso e um pouco ansioso, preserva a aura do proferimento da palestra da qual resultou, na medida em que contém algumas considerações que podem soar irresponsáveis aos ouvidos de especialistas em Platão, ou mesmo de especialistas em questões de didática da filosofia. Vale somente sublinhar que o público da palestra (seguida da palestra da Profª Márcia Ivana, que por sua vez resultou no texto “Do substantivo ao adjetivo: os clássicos que nos cercam”) não era de filósofos, embora houvessem estudantes de filosofia, e que não pretendia mais do que explorar algumas ideias, na ocasião ainda vagas, sobre o tema da articulação entre o eixo metodológico e o eixo histórico (textual) da filosofia em sua didática.

A despeito dos talvez miúdos defeitos, tenho apreço pelo texto na medida em que dele brotaram bons frutos: a criação do Laboratório de diálogos platônicos – um projeto informal do PIBID Filosofia UFRGS no qual Daniel Nascimento (UFPel) gerencia leituras de diálogos (e tragédias) com vistas à sua transposição didática; a mesa redonda “Os diálogos platônicos no currículo de filosofia”, no II WFE (os textos serão publicados em breve); a orientação da realização de uma sequência didática no contexto do PIBID Filosofia da UFRGS e de um texto delas derivado, publicado pelo aluno que as vivenciou na ReFilo; e elaboração de um projeto de pesquisa sobre o assunto (a ser em breve submetido às instâncias avaliadoras da UFRGS).

O livro completo pode ser acessado neste link. Espero que seja uma leitura prolífica, como foi sua escrita!