Quando ninguém educa – questionando Paulo Freire

Está disponível para pré-venda o novo livro do Professor Ronai Rocha, o Quando ninguém educasubintitulado questionando Paulo Freire. 

(Informação prática: professores recebem 20% de desconto no site da Editora Contexto.)

Acompanhei a confecção deste livro desde que era ideia ainda, passando por quando tinha outro título, acho que a partir de fins de 2015, até chegar à última versão e a notícia da impactante capa. Estávamos, em 2015, em meio ao processo de crítica à primeira versão da BNCC, quando – como conta Ronai na Introdução, que pode ser acessada aqui – uma importante associação nacional de educação cometeu uma dura crítica à empreitada mesma de construção de uma Base Curricular mínima para a escola brasileira.

Conforme fui lendo as diferentes versões do texto neste último par de anos – sempre contente pela confiança do maestro em minha capacidade leitora – não só aprendi muito sobre crítica, epistemologia, pedagogia, história das ideias, sobre a universidade brasileira, sobre Paulo Freire (seus contextos e sectos, seus textos e ideias), mas sobre como acertar a letra e o passo de um texto que, por sua natureza, estilo e substância, já se sabia desde sempre que causaria as mais diversas reações. Estou segura de que a variedade delas incluirá muitos “não li e não gostei”, algumas leituras oportunistas e outras tantas dedicadas e justas.

A lida cotidiana é bastante e intensa por estes dias, mas já está prometida uma resenha do livro para meados de agosto, quando espero poder visitar Santa Maria para o lançamento.

Até lá, deixo o convite para que o livro seja lido por todos os interessados em educação em nosso país, segundo os mesmos rigor, acurácia e arrojo com os quais foi escrito – ainda que, quase que de modo inescapável, gere sentimentos conflitantes, do mesmo modo como foi escrito.

Em tempos de ruptura e reorganização de forças sociais, políticas e também acadêmicas, como os que estamos vivendo, este livro nos oferece a perspectiva de sacudir certas poeiras (seria melhor dize-lo: movimentar certas placas tectônicas?) que há muito nos impedem de ver melhor onde estamos, como aqui chegamos, bem como por onde e por que seguir.

Em tempo, a editora apresentou o livro assim (o grifo da frase final é meu):

A crise na educação brasileira é inegável. A baixa qualidade das aprendizagens, a estagnação do desempenho escolar nos testes padronizados, a pouca relevância do aumento dos anos de estudo na vida do aluno, a crescente evasão escolar em todos os níveis, o aumento da distorção idade-série e tantos outros problemas são evidências disso. Mas onde se localizam as raízes teóricas da atual crise educacional que vivemos? Neste livro, o professor Ronai Rocha se dedica a desvendar e a compreender o pensamento teórico dominante no cenário educacional e pedagógico brasileiro. O autor realiza um movimento esclarecedor sobre as raízes da reflexão sobre educação no país, que incidem até hoje na formação de nossos professores. E mostra como uma maneira peculiar de ler Paulo Freire afeta o ensino no Brasil.

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Últimas da semana

Pelas rede social, aquela na qual a maioria de nós se fecha em sua bolha de contatos com quem tem afinidades, compartilhou-se o link para a lista de emendas à MP do EM. Por lá também, na minha bolha, reabriu-se uma discussão sobre a necessidade da filosofia no currículo do ensino médio. Fiquei contente de ter iniciado esta conversa com colegas que normalmente não se ocupam com temas de didática de filosofia – seria uma vantagem apareceu com toda esta confusão? Seja como for, uma das coisas que trocamos no papo foi a leitura deste texto, que pretendo traduzir, onde se redescobre Sócrates, nossa América.

Encontra-se aqui um relato da audiência de terça-feira, sobre o Ensino Médio, realizada na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados.

Neste dia, “coincidentemente”, foram divulgados os resultados do ENEM, sem a contabilização dos resultados dos alunos dos Institutos Federais, como já tinha contado aqui. O Inep admitiu o equívoco alegando problemas “na interpretação da legislação por parte da equipe técnica que fez os cálculos”. Alguém pelo Twitter ironizou: “Interpretação de texto é uma das habilidades avaliadas no Enem.” Ironia à parte, é preciso marcar que este equívoco serve bem aos interesses de quem tende a aprovar parcerias público-privadas no, ou mesmo a privatização do, sistema público de ensino.

O Ministro da Educação, que costuma ser aconselhado por pessoas pouco sabidas nos assuntos de sua pasta, empossou ontem nova presidência do Conselho Nacional de Educação, que será o responsável por orientar o debate sobre o EM. Neste evento foram proferidos discursos que não se encaixam com a realidade – ou seja, são daquele tipo que tradicionalmente se denominam de falsos (coisa que não deve preocupar os pós-modernos-líquidos-rizomáticos que não gostam muito de falar de verdade-e-falsidade, essa distinção ultrapassada). Renato Janine Ribeiro se manifestou em entrevista à Carta Capital, sobre esse contexto, vale a leitura.

Noticia-se, e isso é bastante significativo, que no Paraná muitas escolas estão ocupadas contra a medida (O Globo fala em 15, o Bonde em 28). De acordo com a Rede Brasil Atual, são 34 em todo o país.

Tentarei selecionar os registros dos atos do final de semana para divulgar aqui na segunda-feira, mas não tenho lá muitas esperanças de poder seguir com o ritmo das postagens desta semana nos próximos dias, pois a próxima será semana de preparativos para as apresentações que realizarei na ANPOF. Dentro elas, um minicurso sobre a potência interdisciplinar da lógica no ensino médio, na ANPOF-EM, que vou ministrar com a colega Nastassja Pugliese nas manhãs dos dias 18,19 e 20 de outubro.

"il faut faire les nombres"

A foto acima veio do Flickr de Ronai Rocha.

 

 

Saídas e entradas – o ano novo em retrospecto

Tenho recebido alguns emails nos últimos meses informando que cresce o número de pessoas que encontra este blog, quase um órfão: foi criado para que eu divulgasse algumas ideias e projetos sobre ensino de filosofia ao longo de 2014 – ano que termina hoje – mas tem poucas postagens. Muito menos do que eu gostaria de ter publicado. Ocorre que a intensidade dos trabalhos realizados ao longo dos dois últimos semestres foi generosa, como os resultados que delas derivaram. Então conto um pouco o que andei fazendo e deixo registrado meu desejo de prometer, neste clima de saídas e entradas que se cria de dezembros para janeiros, que serei mais assídua nas notícias e reflexões para meus poucos leitores no ano que chega.

Em retrospectiva, narro:

Ainda na semana anterior ao I Workshop de Filosofia e Ensino que organizei na UFRGS em julho, proferi uma pequena palestra intitulada “Diálogos que nossos alunos podem ler”, a convite da professora Márcia Ivana Lima Silva, que coordena o PET Letras da UFRGS. Foi a última da segunda série de palestras do ciclo “Livros que seu aluno pode ler”, uma iniciativa interessantíssima pela qual professores são convidados a falar sobre livros não didáticos a serem lidos na escola. O primeiro volume (derivado da primeira série de palestras) pode ser acessado aqui. O segundo deve sair ao longo do primeiro semestre de 2015, e nele estará contido o texto da palestra, na qual falei sobre a possibilidade de ler diálogos platônicos nas salas de aula do ensino médio.

No segundo semestre de 2014 fui ao Uruguai duas vezes, para três eventos diferentes: dois em agosto e um em setembro. Na ocasião de agosto estive, a convite de minha amiga Mónica Herrera Nogueira, no Centro Regional de Professores SW, em Colônia do Sacramento, para o evento comemorativo dos quinze anos deste centro de formação de professores. Participei de uma mesa redonda sobre ensino de filosofia e fiz uma comunicação intitulada “Filosofia e Interdisciplinaridade na Escola”. A outra participante da mesa foi a professora Cecilia Ardito, que leciona no ensino secundário em ColIonia e contou um pouco de sua experiência com ações interdisciplinares envolvendo filosofia e literatura, destacando os processos de tomada de consciência das próprias aprendizagens dos alunos. Foi a primeira apresentação “acadêmica” de Cecilia, mas ela se saiu muitíssimo bem e eu espero poder encontra-la novamente!

Infelizmente não pude acompanhar até o final o evento que Mónica organizou de modo tão cuidadoso, pois tive que retornar a Montevideo no mesmo dia para poder participar do II Congresso da Sociedade Filosófica do Uruguai. Também contei um pouco sobre as experiências do PIBID Interdisciplinar, que coordeno, na comunicação “Ensino de filosofia e aspectos transversais das aprendizagens escolares: notas sobre duas experimentações didáticas”. As apresentações foram parecidas, mas na primeira falei mais sobre o papel articulador da filosofia nas ações interdisciplinares de nosso PIBID, muito embora em realidade as nossas práticas não tenham sempre explicitado os aspectos filosófico-conceituais das mesmas.

(Na segunda ocasião em que estive em Montevideo, em setembro, foi para proferir uma série de palestras sobre minha tese de doutorado. Como ela não tem nada a ver com ensino de filosofia, não preciso falar destas palestras aqui, senão para informar que foi um núcleo do Espaço Interdisciplinar da Universidade da República, nas pessoas de María Fernanda Pallares e José Seoane, quem me convidou para estas palestras. O núcleo é composto por professores pesquisadores de Filosofia, Matemática, Engenharia e Computação. A interdisciplinaridade está por todos os lados!)

Em outubro estive em três eventos: o Salão UFRGS 2014, como banca no de Iniciação Científica e como co-autora de muitos trabalhos dos bolsistas do PIBID InterVale no Salão de Ensino – aliás, Dandara Cemin Cagliari, bolsista do curso de Letras que trabalha na equipe da E.T.E.Senador Ernesto Dornelles, foi premiada na sessão “Boas práticas de ensino” com o trabalho no qual ela descrevia nossa experiência interdisciplinar nesta escola, que teve a Fotografia como eixo central; também estive em Santa Maria, palestrando na abertura da sessão de Filosofia Teórica da 29ª Jornada Acadêmica Integrada da UFSM. Desta vez desenvolvi um pouco o tema da palestra sobre diálogos platônicos, enfatizando tópicos de ensino de lógica que podem ser explorados na intersecção entre leituras literárias e filosóficas. Este desdobramento só foi possível, devo observar, porque Matheus Penafiel, bolsista PIBID do curso de Filosofia, apostou numa ideia que teve a partir da referida palestra e desenvolveu, sob orientação minha e da colega Priscilla Spinelli, uma sequência didática inspirada na sugestão de ler diálogos como forma de introdução a tópicos de lógica e filosofia. Este trabalho ainda está em desenvolvimento e esperamos aprimora-lo ao longo de 2015; o último evento desde atarefado mês foi a II ANPOF Ensino Médio, do qual participei na qualidade de membro da comissão organizadora, sob a batuta de Eduardo Salles Barra (UFPR) e ao lado de Fillipe Ceppas (UFRJ), José Leonardo Ruivo (PUCRS), Marcelo Guimarães (Unirio), Marta Vitória de Alencar (CAp USP) e Patrícia Velasco (UFABC). O evento foi muito bom e em outra postagem prometo detalhar as razões para esta avaliação.

Em novembro participei de dois eventos: o Seminário Internacional Prodocência UFRGS/Colóquio Nacional PIBID UFRGS/Seminário Institucional PIBID UFRGS, e muitos bolsistas (incluindo os dois supervisores) do PIBID InterVale também. Neste evento apresentei uma comunicação na qual introduzi o apontamento de problemas nas concepções de interdisciplinaridade que aparecem nos documentos do MEC, sugerindo a relevância de distinções conceituais que nos auxiliem a diminuir as pretensões e ter mais clareza no planejamento e execução de práticas interdisciplinares. Chamou-se “Práxis curricular interdisciplinar: distinções preliminares” e será publicado por completo nos anais do evento. O outro evento, novamente relacionado a temas de filosofia das ciências formais, foi também em Santa Maria.

Em dezembro, além da finalização de todas as tarefas acadêmicas de final de semestre, estive em Curitiba para uma reunião na UFPR, que será a sede do futuro mestrado profissional em Filosofia (o PROF da Filosofia, destinado a professores do ensino médio e que funciona em rede nacional) e em Brasília para a cerimônia de entrega do Prêmio Capes de Teses.

Foram muitos eventos, textos, conversas, ideias, abertura de portas e amadurecimentos que apenas as vivências, com seus prazeres e dores, nos fazem passar. O que tenho como certo é que há muitas coisas boas para serem feitas em e para o ensino de filosofia, de lógica e interdisciplinaridade nas escolas, que tenho excelentes parceiros e estudantes com os quais encaminhar boas práticas e que não me faltam ganas de realiza-las e seguir compondo.

Que olhando para o que vem não esqueçamos do que foi, como sugere a imagem de Janus, o deus triplamente cantado por Ovídio.

Janus

(Para começar, inicio uma pequena série de postagens com outros materiais do I Workshop para que se possa baixar por aqui. Fica aqui um arquivo em formato PDF com a apresentação da palestra da Nastassja Pugliese, “Sobre ensino de Lógica e Pensamento Crítico”.)