Viceja

Ocorre daqui a alguns dias na UFRGS o IV Workshop de Filosofia e Ensino. Dadas as atuais circunstâncias brasileiras, nas quais se ameaça tanto, inclusa a vida de nossa atividade como disciplina obrigatória nas escolas – e mesmo a realização plenamente adequada de eventos como este, dada a escassez de recursos – o tema deste ano é “Qual Filosofia? Qual Ensino Médio?”.

No ano que vem completam-se 10 anos de nossa inserção como disciplina obrigatória nos currículos do ensino médio brasileiro, e nesta década muitas coisas importantes foram feitas para discutir e aprimorar o ensino de filosofia no Brasil – fortalecimento do GT da ANPOF Filosofar e Ensinar a Filosofar (que este ano realiza a quarta edição de seu encontro), desenvolvimento das Olimpíadas de Filosofia em diversos estados, criação da ANPOF/Ensino Médio, criação do PROF-Filo, realização de diversas atividades e encontros relacionados aos PIBID Filosofia (acaba de ocorrer o III Encontro, em Natal). Isso sem falar nos frutos da árvore editorial, e os da preparação para exames de ingresso etc..

O evento da UFRGS, cuja programação completa pode ser acessada aqui, é uma tentativa de mostrar a importância de conversas sobre nós, professores de filosofia, e nossas relações curriculares na e com a escola.

 

UFRGS/Campus do Vale – Porto Alegre/Brasil

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Mais reações e respostas, além de uma reflexão

Desde a última postagem fiquei sabendo que:

Hoje, terça-feira (04 de outubro) a Comissão de Educação da Câmara dos deputados fará um debate sobre a reforma do Ensino Médio.

(Atualização, via perfil do Senado no Twitter: “Comissão de Educação acaba de aprovar requerimento de audiência pública para debater a Reforma do Ensino médio. A data ainda será definida.” A propósito, o mesmo perfil ontem divulgou a imagem abaixo, supostamente para esclarecer as pessoas sobre a MP, na qual afirma que Filosofia e Sociologia seriam facultativas. Quanto ruído!)

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O secretário de Educação Básica do MEC (Ministério da Educação), Rossieli Soares da Silva, afirmou que as mudanças preconizadas pela MP “vão doer”, mas só enquanto estivermos nos adaptando à nova realidade (é uma tristeza a escolha dessa metáfora, mas corresponde bem ao espírito “enfiando goela abaixo” desse executivo).

Diversas manifestações de repúdio foram publicadas, por exemplo, pela Faculdade de Educação da Unicamp e pela SBPC.

Desde a capital da antiga Província de São Pedro (Porto Alegre) sabe-se que daqui apouco irá ao ar, pela Rádio UFRGS, programa entrevistando a Profª. Maria Beatriz Moreira Luce sobre a MP e que domingo haverá um ato no Parque da Redenção, promovido pela Frente Gaúcha Escola Sem Mordaça.

Possivelmente a informação mais preocupante é que a PEC 241, que limita despesas com saúde e educação em 20 anos, será votada pela comissão especial na próxima quinta-feira.

Por fim, deixo aqui, pensando especialmente nos alunos da Filosofia da UFRGS que querem debater o assunto, o texto que o Prof. Ronai Rocha acaba de subir em sua página do Academia.edu. Trata-se de uma versão condensada da palestra por ele proferida no III WFE UFRGS, refletindo sobre os momentos da inserção da filosofia no currículo escolar brasileiro (com uma nota final sobre a MP) a partir de uma distinção entre perspectivas de primeira e terceira pessoa. Esta versão do trabalho foi feita para ser apresentada em um evento em que se divulgou a abertura de edital de ingresso no PROF-Filo, pensando as articulações entre graduação e pós-graduação em filosofia desde a ótica da formação de professores mas pode servir bem para encaminhar as conversas sobre o assunto dentre aqueles que ainda não cursaram as disciplinas vinculadas com a didática da filosofia nem tampouco frequentaram alguma vez o WFE.

Sem título.

 

A foto acima é de Daniel Nascimento, de uma praça em Berlim chamada Koppenplatz.

(O monumento traz  os versos  de um fortíssimo poema de Nelly Sachs.

A foto só está aqui porque o sentimento que me toma ao pensar nos nossos rumos políticos e sociais me faz lembrar dessa cadeira jogada, como signo de ruptura e de eliminação do diálogo e, claro, no extremo, do outro.)

 

Saídas e entradas – o ano novo em retrospecto

Tenho recebido alguns emails nos últimos meses informando que cresce o número de pessoas que encontra este blog, quase um órfão: foi criado para que eu divulgasse algumas ideias e projetos sobre ensino de filosofia ao longo de 2014 – ano que termina hoje – mas tem poucas postagens. Muito menos do que eu gostaria de ter publicado. Ocorre que a intensidade dos trabalhos realizados ao longo dos dois últimos semestres foi generosa, como os resultados que delas derivaram. Então conto um pouco o que andei fazendo e deixo registrado meu desejo de prometer, neste clima de saídas e entradas que se cria de dezembros para janeiros, que serei mais assídua nas notícias e reflexões para meus poucos leitores no ano que chega.

Em retrospectiva, narro:

Ainda na semana anterior ao I Workshop de Filosofia e Ensino que organizei na UFRGS em julho, proferi uma pequena palestra intitulada “Diálogos que nossos alunos podem ler”, a convite da professora Márcia Ivana Lima Silva, que coordena o PET Letras da UFRGS. Foi a última da segunda série de palestras do ciclo “Livros que seu aluno pode ler”, uma iniciativa interessantíssima pela qual professores são convidados a falar sobre livros não didáticos a serem lidos na escola. O primeiro volume (derivado da primeira série de palestras) pode ser acessado aqui. O segundo deve sair ao longo do primeiro semestre de 2015, e nele estará contido o texto da palestra, na qual falei sobre a possibilidade de ler diálogos platônicos nas salas de aula do ensino médio.

No segundo semestre de 2014 fui ao Uruguai duas vezes, para três eventos diferentes: dois em agosto e um em setembro. Na ocasião de agosto estive, a convite de minha amiga Mónica Herrera Nogueira, no Centro Regional de Professores SW, em Colônia do Sacramento, para o evento comemorativo dos quinze anos deste centro de formação de professores. Participei de uma mesa redonda sobre ensino de filosofia e fiz uma comunicação intitulada “Filosofia e Interdisciplinaridade na Escola”. A outra participante da mesa foi a professora Cecilia Ardito, que leciona no ensino secundário em ColIonia e contou um pouco de sua experiência com ações interdisciplinares envolvendo filosofia e literatura, destacando os processos de tomada de consciência das próprias aprendizagens dos alunos. Foi a primeira apresentação “acadêmica” de Cecilia, mas ela se saiu muitíssimo bem e eu espero poder encontra-la novamente!

Infelizmente não pude acompanhar até o final o evento que Mónica organizou de modo tão cuidadoso, pois tive que retornar a Montevideo no mesmo dia para poder participar do II Congresso da Sociedade Filosófica do Uruguai. Também contei um pouco sobre as experiências do PIBID Interdisciplinar, que coordeno, na comunicação “Ensino de filosofia e aspectos transversais das aprendizagens escolares: notas sobre duas experimentações didáticas”. As apresentações foram parecidas, mas na primeira falei mais sobre o papel articulador da filosofia nas ações interdisciplinares de nosso PIBID, muito embora em realidade as nossas práticas não tenham sempre explicitado os aspectos filosófico-conceituais das mesmas.

(Na segunda ocasião em que estive em Montevideo, em setembro, foi para proferir uma série de palestras sobre minha tese de doutorado. Como ela não tem nada a ver com ensino de filosofia, não preciso falar destas palestras aqui, senão para informar que foi um núcleo do Espaço Interdisciplinar da Universidade da República, nas pessoas de María Fernanda Pallares e José Seoane, quem me convidou para estas palestras. O núcleo é composto por professores pesquisadores de Filosofia, Matemática, Engenharia e Computação. A interdisciplinaridade está por todos os lados!)

Em outubro estive em três eventos: o Salão UFRGS 2014, como banca no de Iniciação Científica e como co-autora de muitos trabalhos dos bolsistas do PIBID InterVale no Salão de Ensino – aliás, Dandara Cemin Cagliari, bolsista do curso de Letras que trabalha na equipe da E.T.E.Senador Ernesto Dornelles, foi premiada na sessão “Boas práticas de ensino” com o trabalho no qual ela descrevia nossa experiência interdisciplinar nesta escola, que teve a Fotografia como eixo central; também estive em Santa Maria, palestrando na abertura da sessão de Filosofia Teórica da 29ª Jornada Acadêmica Integrada da UFSM. Desta vez desenvolvi um pouco o tema da palestra sobre diálogos platônicos, enfatizando tópicos de ensino de lógica que podem ser explorados na intersecção entre leituras literárias e filosóficas. Este desdobramento só foi possível, devo observar, porque Matheus Penafiel, bolsista PIBID do curso de Filosofia, apostou numa ideia que teve a partir da referida palestra e desenvolveu, sob orientação minha e da colega Priscilla Spinelli, uma sequência didática inspirada na sugestão de ler diálogos como forma de introdução a tópicos de lógica e filosofia. Este trabalho ainda está em desenvolvimento e esperamos aprimora-lo ao longo de 2015; o último evento desde atarefado mês foi a II ANPOF Ensino Médio, do qual participei na qualidade de membro da comissão organizadora, sob a batuta de Eduardo Salles Barra (UFPR) e ao lado de Fillipe Ceppas (UFRJ), José Leonardo Ruivo (PUCRS), Marcelo Guimarães (Unirio), Marta Vitória de Alencar (CAp USP) e Patrícia Velasco (UFABC). O evento foi muito bom e em outra postagem prometo detalhar as razões para esta avaliação.

Em novembro participei de dois eventos: o Seminário Internacional Prodocência UFRGS/Colóquio Nacional PIBID UFRGS/Seminário Institucional PIBID UFRGS, e muitos bolsistas (incluindo os dois supervisores) do PIBID InterVale também. Neste evento apresentei uma comunicação na qual introduzi o apontamento de problemas nas concepções de interdisciplinaridade que aparecem nos documentos do MEC, sugerindo a relevância de distinções conceituais que nos auxiliem a diminuir as pretensões e ter mais clareza no planejamento e execução de práticas interdisciplinares. Chamou-se “Práxis curricular interdisciplinar: distinções preliminares” e será publicado por completo nos anais do evento. O outro evento, novamente relacionado a temas de filosofia das ciências formais, foi também em Santa Maria.

Em dezembro, além da finalização de todas as tarefas acadêmicas de final de semestre, estive em Curitiba para uma reunião na UFPR, que será a sede do futuro mestrado profissional em Filosofia (o PROF da Filosofia, destinado a professores do ensino médio e que funciona em rede nacional) e em Brasília para a cerimônia de entrega do Prêmio Capes de Teses.

Foram muitos eventos, textos, conversas, ideias, abertura de portas e amadurecimentos que apenas as vivências, com seus prazeres e dores, nos fazem passar. O que tenho como certo é que há muitas coisas boas para serem feitas em e para o ensino de filosofia, de lógica e interdisciplinaridade nas escolas, que tenho excelentes parceiros e estudantes com os quais encaminhar boas práticas e que não me faltam ganas de realiza-las e seguir compondo.

Que olhando para o que vem não esqueçamos do que foi, como sugere a imagem de Janus, o deus triplamente cantado por Ovídio.

Janus

(Para começar, inicio uma pequena série de postagens com outros materiais do I Workshop para que se possa baixar por aqui. Fica aqui um arquivo em formato PDF com a apresentação da palestra da Nastassja Pugliese, “Sobre ensino de Lógica e Pensamento Crítico”.)

Diálogos com a escola: experiências em formação continuada em filosofia na UFRGS

“Pode-se dizer, de um modo geral, que a organização em dois volumes destes Diálogos marca o início de uma nova etapa das relações entre a Universidade e a Escola no que diz respeito ao cativante tema ‘Ensino de filosofia’. A especificidade de tais relações aparece já no título mesmo da iniciativa que resultou na presente publicação, qual seja, o Curso de Formação Continuada para Professores de Filosofia do Ensino Médio do Rio Grande do Sul – promovido pelo Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, nas dependências da mesma, entre os meses de novembro de 2012 e julho de 2013.

Ora, em se tratando dos primeiros movimentos de um diálogo que se pretende prolífico e duradouro, nada mais razoável do que registrar o modo como ocorreram as aproximações entre as duas esferas educacionais – Universidade e Escola. O registro é, portanto, duplo: no primeiro volume, publicam-se os textos relativos às aulas ministradas por professores universitários, secundaristas e bolsistas de pós-graduação em filosofia para os professores do Ensino Médio gaúcho nos primeiros meses da formação. Já no segundo volume, publicamos alguns planos de aula dos professores em formação continuada – planos que permitem a observação da multiplicidade de perspectivas filosóficas que se pretendeu fornecer aos docentes do nível médio, objetivando o elenco das mais variadas possibilidades de abordagem didático-filosóficas – e que correspondem às atividades realizadas nos meses finais da formação.

É certo que se poderia objetar à estratégia escolhida, uma vez reconhecido o fato de que boa parte dos docentes que procuraram o Cursonão possui formação específica em Filosofia – e que, portanto, apresentar tantas visões distintas poderia obscurecer os resultados desta iniciativa formacional. Parece-me, pelo contrário, que uma tal objeção não leva em conta justamente o fato de que a filosofia se faz de vários modos, e a busca por diretrizes didáticas precisas – donde a importância de considerações de ordem metodológica ou instrumental – não pode iniciar sem o reconhecimento, como de um marco zero, desse fato.

Assim, ao percorrer as páginas destes dois volumes, o leitor deve lembrar que se trata, como se disse, do registro dos primeiros movimentos institucionais de diálogo entre o Departamento de Filosofia da UFRGS e os professores de Filosofia das Escolas do nível médio gaúcho e, por outro lado, embora talvez mais implicitamente, que esses registros servem como uma espécie de chamado para que os interessados no ensino de Filosofia venham a contribuir nas edições futuras e desejáveis de mais Cursos de Formação Continuada como o que resultou nestes volumes.

Que a plurivocidade de perspectivas reunidas aqui possa, portanto, incitar melhoramentos em nossas conversas sobre Ensino de Filosofia e que possamos cada vez mais e de modo mais filosófico refletir sobre nossas práticas docentes levando em conta o saudável intercâmbio das experiências de Universidade e Escola – é o desejo dos organizadores, gratos, vale dizer, pela valorosa participação dos docentes nesse movimento de aproximação do qual certamente temos muito o que aprender.”

***

Este foi o brevíssimo prefácio que escrevi para o resultado do Curso de Formação Continuada em Filosofia para professores do Ensino Médio no Rio Grande do Sul, realizado entre 2012 e 2013 sob a coordenação da professora Priscilla Tesch Spinelli, colega do Departamento de Filosofia da UFRGS. O curso é uma das parcelas do FORPROF UFRGS, que por sua vez faz parte do Plano Nacional de Formação dos Profissionais da Educação Básica do Ministério da Educação, o PARFOR.

Acompanhar os movimentos finais do curso, a convite da então nova colega (minha chegada na UFRGS ocorrera em junho de 2013), foi minha primeira atividade na nova casa. Os encontros aconteciam aos sábados pela manhã e quando comecei a frequenta-los já haviam ocorrido todas as aulas com professores e pós-graduandos, tanto do Departamento de Filosofia da UFRSG quanto de instituições externas a UFRGS, oferecidas aos professores em formação. Trava-se, então, de uma série de apresentações destes professores, relatando suas experiências docentes e mostrando a montagem de planos de aula baseados nas aulas/palestras realizadas nos meses anteriores.

Foi uma ótima experiência conhecer estes professores, boa parte dos quais sem formação específica em Filosofia, e saber um pouco mais das delícias e dificuldades que experimentam no cotidiano das escolas.

Outra oportunidade que tive ao ingressar, ainda que informalmente, na equipe de trabalho do Curso, foi a de editoração dos trabalhos que acabam de ser publicados nos dois volumes de Diálogos com a escola: experiências em formação continuada em filosofia na UFRGS.

O primeiro volume contem os textos escritos pelos professores formadores:

 O lugar da filosofia no currículo escolar – Ronai Pires da Rocha

 Ensinar a filosofar – Desidério Murcho

Metafilosofia e ensino de filosofia – Leonardo Sartori Porto

Lições de Lógica para Análise de Inferências – Manuel Bauer Estivalet e Mitieli Seixas da Silva

Metafísica e Ciência – Mitieli Seixas da Silva e Sílvia Altmann

Conhecimento e Justificação Epistêmica em sala de aula – Giovanni Rolla, José Leonardo Annunziato Ruivo e Rafael da Silva Holsback

Ética: perspectivas sobre o seu ensino – Fábio Gai Pereira

Filosofia Política e Direitos Humanos – Nikolay Steffens e Alfredo Storck

Cinema e Filosofia: Por quê? Como? Onde? – Jônadas Techio

Filosofia e ficção: uma proposta pedagógica – José Eduardo Porcher

O segundo volume contem os planos de aula de alguns dos professores em formação:

Para que “serve” a filosofia? – Patrícia Trindade de Angelis

Lógica e Metafísica: uma introdução à argumentação – Juliana Paiva Soares

A Lógica na argumentação – Antônio Carlos Silveira dos Santos

Heliocentrismo X Geocentrismo: Paradigmas e Revoluções Científicas – Letícia Morales Brum

O Problema da Indução – Paulo Ricardo Kobielski

Determinismo e livre arbítrio – Thiago Delaíde da Silva

Utilitarismo em Ética – Michele Santos da Silva

Ética do Meio Ambiente – Marina Aparecida Madeira

A violência na escola e a ética: uma abordagem psicodramática – Ildo Ronan Vilarinho Júnior

Quais os critérios da ação correta? – Melissa Mayer Ferraz

Argumentação em Ética – Simone Maria Galli Primieri

Juízo de fato e de valor, subjetivismo e objetivismo – Rogério Sidnei Martins

Política e Cidadania – Ernesto Alba

A importância da participação política – Marcos Vinicius da Silva Goulart

Contratualismo Político – Débora Perroni Cassanego

 Esperamos que os textos e planos aqui publicados sejam para bom proveito de todos os interessados em questões de ensino de filosofia.