Encontros, chamadas etc..

Esta é semana do Salão UFRGS, na qual também ocorre a Semana Acadêmica de Filosofia, cuja programação pode ser acessada no site do Departamento.

Destaco que a oficina oferecida nesta edição do evento – Argumentar e lutar: lógica,  filosofia e combate à opressão – será ministrada por duas alunas da Licenciatura em Filosofia da UFRGS, com base em uma experiência vivenciada por elas como bolsistas do PIBID Filosofia UFRGS durante o período de ocupações das escolas no ano passado.

Tratou-se uma uma oficina de Feminismo e Lógica (sim, é isso mesmo), que vai ser relatada, e a partir da qual Márcia Laux e Rafaela Nunes proporão reflexões sobre como a experiência pode servir de inspiração para outros trabalhos didático-filosóficos relacionando a aprendizagem da lógica (em sentido amplo, tal como procuro distinguir aqui) com temas de fundamental importância, como as disputas por reconhecimento e lutas contra opressões as mais diversas. As alunas, vale notar, tiveram trabalhos sobre esta experiência aceitos em dois eventos: o IV Encontro do GT da ANPOF Filosofar e Ensinar a Filosofar e o XX Encuentro Internacional de Didáctica de la Lógica. Para quem tem curiosidade sobre o tipo de relação entre lógica e feminismo que está sendo proposto, este link fornece um exemplo os argumentos de Mary Wolstonecraft pelos direitos das mulheres em “A Vindication of the Rights of Woman”.

Varia

Foi publicado o edital de seleção para o Curso de Especialização em Ensino de Filosofia da UFPel. Confira aqui.

A Revista Refilo está recebendo artigos para seu próximo número até o dia 30 de novembro.

O MEC disponibilizou 62 títulos da Coleção Educadores, sobre a qual:

“As obras são dirigidas aos professores da educação básica e às instituições de educação superior que atuam na formação de docentes, mas o acesso é livre no portal. Paulo Freire, Anísio Teixeira, Jean Piaget e Antônio Gramsci, dentre outros, fazem parte da Coleção Educadores. Integram a coleção 31 autores brasileiros, 30 pensadores estrangeiros e um livro com os manifestos Pioneiros da Educação Nova, escrito em 1932, e dos Educadores, de 1959.”

Li uma notícia que me fez pensar em como pode ser nefasta, por superficialidade, a inclusão da Filosofia em processos seletivos, como o ENEM.

Aqui se pode ler uma matéria sobre os movimentos de ocupação nas escolas secundaristas argentinas, contras as reformas lá propostas. Aqui, um texto sobre a reforma do Ensino Médio brasileiro, ou a suposta liberdade que ela possibilitará aos alunos. Aqui um texto em inglês sobre a imaturidade dos jovens para escolher cursos superiores.

Ainda sobre a decisão do STF sobre o ensino religioso nas escolas públicas, seus impactos na organização escolar, leia-se aqui.

A Sociedade Brasileira de Física, elaborou um manifesto acerca das ameaças ao ensino de ciências através de projetos como o ESP – chama-se Manifesto em Favor de um Ensino Pleno sem Restrições de Conhecimento ou Liberdade de Expressão.

Também sobre os perigos do obscurantismo de nossos tempos no ambiente escolar, Eliane Brum escreveu sobre a “Escola sem Pinto”.

Foi publicado um volume especial de Textbooks in Language Sciences, chamado A aquisição de língua materna e não materna: Questões gerais e dados do Português. O material pode ser baixado aqui.

Saiu um livro sobre as famigeradas avaliações/testes em grande escala, de autoria de Daniel Koretz, The Testing Charade – Pretending to Make Schools Better.

Está no ar o primeiro volume do Journal of Didactics of Philosophy, que pode ser baixado no site da revista.

O novo número da revista Philosophy Now é sobre “Socrates, Plato and Modern Life”, e tem artigos muito interessantes sobre a atualidade desses antigos.

Recentemente descobri este Centro de Pesquisas Interdisciplinares que existe na França, no qual há um curso de formação em filosofia prática da educação e da formação.

O currículo deveria ser jogado como um jogo?

O que dizer deste texto sobre “coaching” de novos professores?

Sobre a diminuição do abismo entre ensino formal e informal, aprendizagem baseada em projetos etc., um texto (algo superficial) aqui.

Aqui, uma seleção do jornal The Guardian de textos sobre docência.

Aqui um texto sobre inovações pedagógicas e suas consequências para o ensino superior.

Aqui, um link para o volume 35, n. 3 da Revista Teorema, sobre os debates recentes acerca do que se aprende por meio da ficção.

Saiu um número novo da Revista Docência do Ensino Superior, cujo editorial inicia assim:

“Qual é o papel dos estudantes no processo de ensino-aprendizagem? São eles protagonistas ou apenas receptores de conhecimentos pré-moldados? E qual é o papel dos docentes nesse processo? Cabe a eles apenas a verbalização de conteúdos ou podem ser eles também agentes de inovação, ques onamentos e mudanças? Este número da Revista Docência do Ensino Superior espera favorecer a reflexão sobre essas questões, a começar pela provocação da capa.”

 

 

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Filosofia e Ensino – um blog na ativa

O blog Filosofia e Ensino, criado por Leonardo Ruivo e Marcos Goulart, conta agora com Fábio Vai Pereira e Tatiana Vargas Maia como autores.

Nas últimas semanas, duas ótimas postagens foram publicadas. A primeira é um texto de Leo Ruivo, “Falácias, Vieses e Preconceitos”, que aborda importante tema nesses dias brasilianos em que a pós-verdade (ou, como querem alguns, a boa e velha mentira deslavada) faz cabeças rolarem e se enrolarem, dentro e fora das redes sociais – na vida vivida. A segunda é um texto da Tatiana Vargas, “Estudos de Gênero na sala de aula”, de temática igualmente importante, em tempos de inúmeras tentativas de supressão de tão premente questão das vidas curriculares escolares brasileiras.

Em alguns dias inicia o semestre letivo na UFRGS. Na lista de sítios que recomendo aos alunos de Análise e redação em filosofia – Ensino Médio e Introdução ao estágio em filosofia, estará o link para o Filosofia e Ensino, além do Filosofia Pop.

Alguma sugestão dos leitores para incrementar a lista?

 

Cité de la Musique – Paris

Últimas da semana

Pelas rede social, aquela na qual a maioria de nós se fecha em sua bolha de contatos com quem tem afinidades, compartilhou-se o link para a lista de emendas à MP do EM. Por lá também, na minha bolha, reabriu-se uma discussão sobre a necessidade da filosofia no currículo do ensino médio. Fiquei contente de ter iniciado esta conversa com colegas que normalmente não se ocupam com temas de didática de filosofia – seria uma vantagem apareceu com toda esta confusão? Seja como for, uma das coisas que trocamos no papo foi a leitura deste texto, que pretendo traduzir, onde se redescobre Sócrates, nossa América.

Encontra-se aqui um relato da audiência de terça-feira, sobre o Ensino Médio, realizada na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados.

Neste dia, “coincidentemente”, foram divulgados os resultados do ENEM, sem a contabilização dos resultados dos alunos dos Institutos Federais, como já tinha contado aqui. O Inep admitiu o equívoco alegando problemas “na interpretação da legislação por parte da equipe técnica que fez os cálculos”. Alguém pelo Twitter ironizou: “Interpretação de texto é uma das habilidades avaliadas no Enem.” Ironia à parte, é preciso marcar que este equívoco serve bem aos interesses de quem tende a aprovar parcerias público-privadas no, ou mesmo a privatização do, sistema público de ensino.

O Ministro da Educação, que costuma ser aconselhado por pessoas pouco sabidas nos assuntos de sua pasta, empossou ontem nova presidência do Conselho Nacional de Educação, que será o responsável por orientar o debate sobre o EM. Neste evento foram proferidos discursos que não se encaixam com a realidade – ou seja, são daquele tipo que tradicionalmente se denominam de falsos (coisa que não deve preocupar os pós-modernos-líquidos-rizomáticos que não gostam muito de falar de verdade-e-falsidade, essa distinção ultrapassada). Renato Janine Ribeiro se manifestou em entrevista à Carta Capital, sobre esse contexto, vale a leitura.

Noticia-se, e isso é bastante significativo, que no Paraná muitas escolas estão ocupadas contra a medida (O Globo fala em 15, o Bonde em 28). De acordo com a Rede Brasil Atual, são 34 em todo o país.

Tentarei selecionar os registros dos atos do final de semana para divulgar aqui na segunda-feira, mas não tenho lá muitas esperanças de poder seguir com o ritmo das postagens desta semana nos próximos dias, pois a próxima será semana de preparativos para as apresentações que realizarei na ANPOF. Dentro elas, um minicurso sobre a potência interdisciplinar da lógica no ensino médio, na ANPOF-EM, que vou ministrar com a colega Nastassja Pugliese nas manhãs dos dias 18,19 e 20 de outubro.

"il faut faire les nombres"

A foto acima veio do Flickr de Ronai Rocha.

 

 

Diálogos que nossos alunos podem ler

Só hoje descobri que o livro organizado por Márcia Ivana Lima Silva, Pietra Cassol Rigatti e Filipi Róger Vuauden (do PET-Letras UFRGS) já está disponível.
É o segundo volume de Livros que seu aluno pode ler: formação do leitor na educação básica, derivado de um ciclo de palestras organizado pelo mesmo PET Letras nos últimos anos. Da apresentação do volume, retirei este significativo excerto:
“A grande inquietação do projeto ainda é a noção de matéria como ‘coisa em si’, perdendo a escola a oportunidade de personalizar os discursos e trazer os diversos autores que pensaram e resolveram (ou não) os problemas da humanidade no decorrer dos tempos. Um dos fatores para esta prática é o apoio da aprendizagem apenas no livro didático, tipo de livro sem autor por excelência; ou apoiá-la tão somente no discurso do professor, que reveste este conhecimento de uma natureza oral, quando ele é um conhecimento depositado, de alguma forma, numa tradição escrita (guardadas as especificidades históricas de cada disciplina). Sendo assim, o convite aos especialistas que participaram do ciclo de debates pressupõe a leitura de textos autorais, para além daquilo que os livros didáticos apresentam em cada matéria. A ideia de que a leitura é função de todas as disciplinas é igualmente defendida no Núcleo de Integração Universidade-Escola, da UFRGS, que já organizou dezesseis edições de um livro chamado Ler e escrever: compromisso de todas as áreas, publicado por nossa editora universitária, compilação de artigos de professores das várias disciplinas sobre sua responsabilidade com relação à aprendizagem da leitura e da escrita.

O presente trabalho, que fecha o projeto de publicação de dois volumes do Livros que seu aluno pode ler, traz a contribuição de especialistas que apresentaram textos específicos que podem ser estudados, com sucesso, dentro do contexto escolar. Agradecemos imensamente aos autores dos artigos que aqui publicamos, por sua disposição para participarem das mesas-redondas e, principalmente, por seu tempo para prepararem as palestras e, posteriormente, para a revisão dos textos.”

Livrosqueseualuno

Meu texto, “Diálogos que nossos alunos podem ler”, despretensioso e um pouco ansioso, preserva a aura do proferimento da palestra da qual resultou, na medida em que contém algumas considerações que podem soar irresponsáveis aos ouvidos de especialistas em Platão, ou mesmo de especialistas em questões de didática da filosofia. Vale somente sublinhar que o público da palestra (seguida da palestra da Profª Márcia Ivana, que por sua vez resultou no texto “Do substantivo ao adjetivo: os clássicos que nos cercam”) não era de filósofos, embora houvessem estudantes de filosofia, e que não pretendia mais do que explorar algumas ideias, na ocasião ainda vagas, sobre o tema da articulação entre o eixo metodológico e o eixo histórico (textual) da filosofia em sua didática.

A despeito dos talvez miúdos defeitos, tenho apreço pelo texto na medida em que dele brotaram bons frutos: a criação do Laboratório de diálogos platônicos – um projeto informal do PIBID Filosofia UFRGS no qual Daniel Nascimento (UFPel) gerencia leituras de diálogos (e tragédias) com vistas à sua transposição didática; a mesa redonda “Os diálogos platônicos no currículo de filosofia”, no II WFE (os textos serão publicados em breve); a orientação da realização de uma sequência didática no contexto do PIBID Filosofia da UFRGS e de um texto delas derivado, publicado pelo aluno que as vivenciou na ReFilo; e elaboração de um projeto de pesquisa sobre o assunto (a ser em breve submetido às instâncias avaliadoras da UFRGS).

O livro completo pode ser acessado neste link. Espero que seja uma leitura prolífica, como foi sua escrita!

 

I Workshop de Filosofia e Ensino – Sinopse

Eis um relato bastante geral a semana de atividades do I WFE.

A semana começou com um minicurso proferido pela professora Andrea Loparic, “De que trata a lógica”. Ela iniciu nos falou sobre a construção da linguagem do cálculo de predicados de primeira ordem, enfatizando a especificidade da função da linguagem de que ali se trata, a saber, a função denotativa; passou pelas questões relativas à interpretação e modelos para enfim marcar algumas diferenças entre a lógica clássica e lógicas alternativas, como a lógica modal, a lógica intuicionista e mesmo a lógica paraconsistente.

Na quinta-feira pela manhã o evento abriu com a palestra “Conhecimento simbólico e lógica”, na qual o professor Abel Lassalle Casanave apresentou ideias que favorecem a compreensão de algumas dificuldades típicas dos processos de aprendizagem de lógica simbólica – dificuldades que ele resumiu no diagnóstico de “analfabetismo simbólico-diagramático”. Uma das ênfases que o professor Abel fez questão de realizar, quase como uma demarcação de posição, se deu na avaliação crítica da proposta de que aulas de lógica sejam ministradas tendo em vista a formalização da linguagem natural – dada a natureza da motivação para o desenvolvimento da lógica simbólica, sua estreita relação com procedimentos de ordem matemática, o que não corresponde a um ideal de formalização e normatização do uso cotidiano da linguagem, mas tão somente às necessidades específicas de um domínio do pensamento a que se convencionou chamar pensamento simbólico.

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A segunda palestra, “Sobre o ensino de Lógica e Pensamento Crítico” versou acerca das especificidades desta disciplina, obrigatória no ciclo básico das universidades norte-americanas (a palestrante, Nastassja Saramago Pugliese, é professora assistente desta disciplina na Universidade na qual cursa seu doutorado, a Universidade da Georgia): suas origens histórias, seu status nos departamentos de filosofia e as interseções que naturalmente ocorrem com disciplinas como Introdução ao pensamento filosófico e Lógica simbólica.

A terceira atividade deste primeiro dia de Workshop apresentou um breve panorama das orientações oficiais para os processos de seleção de livros didáticos de filosofia do ensino médio de ensino brasileiro (o edital do PNLD e o Guia do PNLD para a disciplina de Filosofia), mostrando a ausência de qualquer especificação no que diz respeito ao ensino de lógica. Também foi exposto de maneira breve os principais problemas nas seções de lógica dos livros selecionados pelo MEC.

A última atividade do dia foi inesperada: havíamos planejado uma série de exercícios de lógica para “colocar a mão na massa” junto com o público, formado basicamente por professores de filosofia formados ou em formação, e a partir daí discutir estratégias para o ensino de lógica. Ocorre que a partir da exposição realizada na mesa sobre os livros didáticos, bem como da conversa que dela se seguiu, o professor Abel se dispôs a falar sobre uma possibilidade de encaminhamento didático e acabamos decidindo que a Oficina ficaria a seu encargo. Sua sugestão foi a de utilizar um conhecido texto de C.G. Hempel, constante em seu Filosofia da ciência natural, sobre a experiência que conduziu o médico húngaro I. Semmelweis da descoberta da causa da febre puerperal à construção de um método para sua prevenção. A ideia do professor Abel foi a de mostrar a utilização de formas válidas e inválidas de raciocínio na construção de conhecimento científico – o que inclusive permite abordagens interdisciplinares a nível escolar (no caso em questão, seria possível trabalhar com professores de Biologia e mesmo História).

No segundo dia de evento tivemos a apresentação da palestra “A Prática Argumentativa de Michael Sandel”, a cargo do professor Frank Thomas Sautter, que nos mostrou, desde considerações acerca da motivação para o trabalho em questões de Teoria da Argumentação, o modo como o referido autor apresenta os casos a partir dos quais discute problemas éticos em seus badalados livros Justiça – o que é fazer a coisa certa, O que o dinheiro não compra e Contra a perfeição. Um arquivo em formato .pdf com a apresentação pode ser encontrado aqui.

A mesa redonda que se seguiu à palestra do professor Frank versou sobre o uso de diagramas no ensino de lógica, tendo o professor Abel falado sobre a técnica diagramática de Venn para a silogística aristotélica e o professor Frank apresentado um método desenvolvido por ele mesmo para lidar com a silogística, a partir dos diagramas de L. Carrol.

Na segunda e última Oficina, eu e Nasstassja não fizemos mais do que uma breve série de exercícios de diagramação de silogismos para verificar sua validade e de construção de tabelas de verdade para avaliar a validade de raciocínios formalizáveis em lógica proposicional. Também indicamos uma série de livros de apoio para complementar as fraqueza dos conteúdos de lógica dos manuais selecionados pelo MEC, bem como consideramos a possibilidade de realizar uma Escola de Lógica nas férias de verão, para focar na realização de exercícios direcionados ao público escolar, desenvolvendo com maior acuidade as estratégias para o ensino de lógica.

Foi para mim uma grande alegria realizar este encontro, ainda que breve. Não somente porque pude apresentar ao meu novo universo acadêmico dois dos professores com quem aprendi o tantinho que sei desses assuntos, bem como uma colega com quem compartilho desejos de construir caminhos para o ensino de lógica em relação com a filosofia no ensino médio, mas principalmente por reforçar o contato com professores de filosofia interessados em aprimorar suas práticas a partir deste contato com o universo acadêmico.

Resta, a meu ver (dentre muitas coisas a fazer), ampliar o debate em torno dos reais problemas que surgem no cotidiano das salas de aula. Talvez a criação de um fórum virtual ou mesmo o prosseguimento da ideia de realizar uma Escola de Lógica no verão 2014/15 seja um passo nesta caminhada. Aguardo sugestões!